“Um país que teve escravidão escolhe quem conta suas histórias?”

Diretor de Black Machine, Eugênio Lima afirma que o teatro negro disputa narrativas, enfrenta apagamentos históricos e amplia as possibilidades de imaginar o Brasil.

Quem conta a história de um país também ajuda a definir quem pertence a ele. É dessa inquietação que parte Eugênio Lima ao falar sobre Black Machine, espetáculo que leva ao palco uma releitura de Hamlet atravessada por Frantz Fanon, Jean-Michel Basquiat, Aimé Césaire, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Mano Brown e Erykah Badu. Para o diretor, adaptar um clássico nunca foi apenas um exercício de linguagem. É uma disputa por representação.

Ao participar da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, que celebra os 80 anos do Teatro Experimental do Negro (TEN), Eugênio aproxima sua pesquisa da história iniciada por Abdias do Nascimento. Para ele, o teatro negro não reivindica apenas presença nos palcos. Reivindica o direito de produzir imagens, imaginar futuros e disputar as narrativas que ajudaram a construir o Brasil.

“Um país que teve anos de escravidão, que tem populações indígenas, escolhe uma classe média branca para contar essas histórias? Isso não faz sentido. O Teatro Experimental do Negro veio mostrar exatamente isso.”

Ao longo da conversa, Eugênio recusa a ideia de que representação se resume à ocupação de espaços. O problema, diz ele, está também em quem escreve, dirige, interpreta e define quais histórias merecem ser contadas.

Para o diretor, a permanência do blackface na história do teatro brasileiro não representa apenas um gesto racista. Ela revela uma estrutura que negou à população negra a possibilidade de ocupar o centro da narrativa.

“O blackface não é apenas racista. Ele dizia que nenhuma pessoa negra poderia dar vazão àquelas emoções, que não tinha profundidade lírica ou dramática.”

Essa discussão aparece diretamente em Black Machine. Ao deslocar Hamlet para uma iconografia negra, Eugênio transforma um dos personagens mais conhecidos da dramaturgia ocidental em um campo de disputa simbólica. “É um Hamlet enegrecido para jogar o jogo que eu jogo. É um embate. Um ringue metafórico construído pela iconografia negra.”

A ideia de disputa também atravessa a forma como ele construiu sua trajetória. Dança, música, teatro e literatura aparecem como experiências inseparáveis de uma prática coletiva. Eugênio rejeita a lógica do artista excepcional e defende que a produção cultural acontece quando diferentes pessoas constroem caminhos em conjunto.

“A minha vida inteira passou pela construção de coletivos. Quando você coloca uma única pessoa como especial, empobrece a perspectiva da imaginação do próprio país.”

Essa compreensão também orienta sua leitura sobre as lutas sociais. Em vez de pensar raça, gênero e território apenas como marcadores de identidade, ele propõe olhar para os movimentos que historicamente enfrentaram as estruturas coloniais.

“A luta negra e a luta indígena não estão conectadas por acaso.”

Ao refletir sobre os mecanismos que sustentam essas desigualdades, Eugênio volta à educação. Para ele, o apagamento das contribuições negras e indígenas faz parte de um projeto histórico que moldou a maneira como o país passou a enxergar a si mesmo.

“Uma das formas de massificar o complexo de inferioridade é através da educação. A educação brasileira é profundamente racista. Existe um apagamento da população negra e indígena.”

Ao aproximar Shakespeare de Abdias do Nascimento, Fanon, Basquiat e Lélia Gonzalez, Black Machine desloca um clássico do teatro para outro campo de referências. O que está em cena, para Eugênio Lima, não é só uma nova leitura de Hamlet, mas a possibilidade de imaginar um teatro em que negros e indígenas deixem de ser personagens da história contada pelos outros para ocupar, definitivamente, o lugar de quem também escreve, interpreta e transforma essas narrativas.

Fotos: @laboratorio.zz 

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Criado por Jadson Nascimento

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