No Melanina Acentuada Festival, artista potyguara reflete sobre teatro, línguas originárias e o papel da arte na reconstrução das narrativas indígenas.
Juão Nyn costuma dizer que faz teatro para abrir caminhos. Não apenas para contar histórias, mas para devolver à cena aquilo que a colonização tentou apagar: as línguas originárias, as memórias indígenas e outras formas de imaginar o Brasil. É desse lugar que nasce TYBYRA – Uma Tragédia Indígena Brasileira, monólogo em Tupi-Potyguara que integra a programação da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, em Salvador.
Escritor, ator, dramaturgo e pesquisador potyguara, Juão entende sua produção artística como parte de um processo maior de retomada cultural. Para ele, subir ao palco também é produzir conhecimento.
“Estamos fazendo uma demarcação através da educação, e eu também endosso essa fala trazendo a cultura. Sou formado em licenciatura, não quero ser professor, quero ser artista, mas não existe ser artista afastado da pedagogia e da educação.”
A ideia atravessa toda a construção de TYBYRA. Inspirado na história do indígena Tupinambá, executado no Maranhão em 1614, o espetáculo reúne teatro, língua originária e memória para questionar as narrativas coloniais que moldaram a história brasileira. Vencedora do Prêmio Shell de Melhor Trilha Sonora em 2025, assinada por Clara Potiguara, a montagem também aproxima diferentes experiências de resistência.


Foi durante um festival de teatro negro que Juão percebeu, de forma mais evidente, as aproximações entre as lutas dos povos indígenas e da população negra. A partir dessa experiência, essa reflexão passou a orientar sua produção, que dialoga com as questões dos povos originários de maneira ampla.
“As pessoas indígenas e as pessoas negras carregam histórias atravessadas pela retirada de seus territórios, pela violência e pela resistência. Existe essa intersecção.”
Para o artista, ocupar esses espaços também significa enfrentar as ausências produzidas pelo apagamento histórico. Mais do que conquistar visibilidade individual, o desafio é criar condições para que outras pessoas indígenas possam chegar depois. “O maior desafio é entender as ausências, é ser essa ponte para ampliar os caminhos, para que a gente não seja o único dentro desse recorte.”
Essa percepção acompanha sua própria trajetória. Nascido no Rio Grande do Norte, Juão cresceu em um contexto onde a presença indígena era frequentemente negada. Fazer arte a partir desse território, afirma, significa confrontar uma estrutura que insiste em invisibilizar esses corpos e essas histórias.
“Eu me sinto uma assombração, porque venho de uma terra onde acham que não existem indígenas. E eu vou assustando alguns mundos também.”


A imagem da assombração não aparece como metáfora do medo, mas da permanência. É a presença de quem foi declarado ausente e continua ocupando a cena, falando sua língua e produzindo outras formas de contar a história.
