No Melanina Acentuada Festival – Ano 8, escritora e pesquisadora revisita os 80 anos do Teatro Experimental do Negro e defende que o legado do grupo ultrapassa o palco para alcançar a educação, a política e a democracia brasileira.
O Teatro Experimental do Negro costuma ocupar um lugar definido na história da cultura brasileira. Foi a companhia criada por Abdias do Nascimento que abriu espaço para atores negros em um cenário onde eles eram sistematicamente excluídos ou reduzidos a papéis estereotipados. Para Elisa Larkin, essa leitura é insuficiente. Ao revisitar os 80 anos do TEN durante o segundo Ateliê de Ideias da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, a escritora e pesquisadora propôs olhar para o grupo como um projeto de país. O teatro era apenas uma das frentes de atuação.
Em conversa com o ator e diretor Jessé Oliveira, sob mediação do pesquisador Guilherme Diniz, Elisa percorreu episódios que ajudam a compreender o movimento para além da cena. A alfabetização dos primeiros integrantes, a circulação internacional de ideias, os diálogos com intelectuais africanos e da diáspora e a própria estreia da companhia aparecem, em seu relato, como parte de uma mesma estratégia de enfrentamento ao racismo e de construção de uma nova consciência política.
Ao situar o nascimento do Teatro Experimental do Negro, Elisa lembrou que o grupo surge em 1944, quando o Brasil ainda vivia os últimos anos do Estado Novo e o mundo assistia ao colapso do nazifascismo. Para ela, o TEN representa uma resposta organizada às teorias raciais que sustentaram tanto o fascismo europeu quanto o mito da democracia racial brasileira.


“O Teatro Experimental do Negro surge como uma oposição coletiva a essas ideologias.”
Essa oposição, explicou, nunca esteve restrita ao palco. Antes das primeiras montagens, o grupo promovia aulas de alfabetização e de cultura geral para seus integrantes, entendendo que o acesso ao conhecimento também fazia parte da luta por cidadania.
“Existe uma tendência de olhar para as iniciativas do movimento negro como se fossem dirigidas apenas aos negros. Mas uma proposta que nasce do povo negro beneficia o país inteiro.”
A dimensão internacional do Teatro Experimental do Negro apareceu quando Guilherme Diniz provocou Elisa a falar sobre as conexões do grupo com movimentos negros em outros países. Ela voltou alguns anos no tempo, antes mesmo da criação do TEN, para lembrar o Congresso Afro-Campineiro, realizado em 1938, quando Abdias do Nascimento, Geraldo Campos de Oliveira e Aguinaldo Camargo já discutiam as lutas anticoloniais no continente africano.
Mais tarde, essas articulações se fortaleceriam por meio do jornal Quilombo, publicação do TEN que estabeleceu diálogo com a revista Présence Africaine, aproximando intelectuais brasileiros de autores ligados ao movimento da Negritude e aos processos de independência dos países africanos. Para Elisa, essa rede internacional nunca foi periférica. Ela fazia parte da identidade política do Teatro Experimental do Negro desde sua origem.
Entre as histórias compartilhadas durante o encontro, uma delas sintetiza o ambiente em que o grupo nasceu. Às vésperas da estreia de O Imperador Jones, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Abdias do Nascimento participou de uma audiência com Getúlio Vargas ao lado de representantes do teatro brasileiro. Ao perguntar como poderia colaborar, o presidente ouviu um pedido direto.
“O Abdias respondeu na hora: ‘Me dá o Teatro Municipal para a nossa estreia’.”
O teatro foi concedido. Dias depois, porém, a data escolhida, 8 de maio de 1945, tornou-se símbolo da vitória das forças aliadas sobre o nazifascismo na Europa. A coincidência levou setores do governo a reivindicarem o espaço para as comemorações oficiais. Abdias insistiu que a estreia fosse mantida. Para ele, não havia celebração mais coerente com o fim do fascismo do que colocar artistas negros, até então excluídos daquele palco, no centro da cena.
Elisa Larkin deslocou o Teatro Experimental do Negro do lugar de marco exclusivamente artístico para compreendê-lo como um movimento que articulava cultura, educação e ação política. Em sua leitura, o legado do TEN permanece justamente porque nunca esteve restrito ao teatro. Sua história continua oferecendo instrumentos para pensar quem produz conhecimento, quem ocupa os espaços de poder e quais projetos de sociedade ainda estão em disputa. É por isso que, oito décadas depois de sua fundação, o Teatro Experimental do Negro continua sendo menos uma lembrança do passado do que uma pergunta dirigida ao presente.
