“Ainda falta levar Abdias para o homem comum”, diz Lincoln Oliveira

No Melanina Acentuada Festival, ator carioca fala sobre o impacto de interpretar Abdias do Nascimento e defende que a trajetória do intelectual negro ultrapasse os espaços acadêmicos.

Lincoln Oliveira não conhecia Abdias do Nascimento como conhece hoje. A aproximação veio pelo teatro, quando recebeu o convite para interpretar o intelectual, dramaturgo, escritor e fundador do Teatro Experimental do Negro. O que começou como um processo de preparação para um espetáculo acabou se tornando uma revisão da própria identidade. Ao mergulhar na trajetória de Abdias, o ator descobriu também outras formas de compreender a si mesmo.

“Nunca fui um negro muito politizado. Quando comecei a pesquisar sobre Abdias, me apaixonei pela vida e pela obra dele. Passei a entender o tamanho da importância que ele tem para o Brasil.”

A montagem integrou a programação da 8ª edição do Melanina Acentuada Festival, que celebra os 80 anos do Teatro Experimental do Negro. Para Lincoln, porém, o espetáculo não termina quando as luzes do palco se apagam. É ali que começa outra conversa, aquela que acontece quando o público leva a história para fora do teatro.

O ator acredita que um dos principais desafios é fazer com que o pensamento de Abdias circule para além da universidade. Embora reconheça a importância da produção acadêmica sobre o intelectual, considera que sua trajetória ainda permanece distante de grande parte da população.

“Na academia, Abdias é conhecido. Mas ainda falta levar essa história para o homem comum, para o preto pobre, para as escolas e para os professores da educação continuada. A gente precisa divulgar mais a vida e a obra dele.”

Essa percepção mudou também a forma como Lincoln passou a olhar para a própria obra de Abdias. O ator conta que ficou impressionado com a atualidade de temas como a crítica ao mito da democracia racial e a defesa da organização política da população negra.

“Quando comecei a estudar Abdias, fiquei impressionado com o quanto ele estava à frente do seu tempo. Ele fazia questão de desmontar o mito da democracia racial e mostrar que essa ideia de convivência harmoniosa entre as raças sempre foi uma construção.”

É justamente por isso que Lincoln vê o teatro como uma ferramenta de formação. Não porque substitua a escola ou a universidade, mas porque cria encontros capazes de despertar perguntas que permanecem depois da apresentação. Depois das sessões, diz ele, é comum ouvir relatos de espectadores que agradecem pela experiência, como se tivessem participado de uma aula. Lincoln prefere outra definição.

“Eu não estou ali para dar aula. Estou ali para contar uma história. Mas contar as nossas histórias também ensina.”

Ao falar sobre Abdias do Nascimento, o ator procura afastar a ideia de um personagem extraordinário desde o nascimento. Prefere lembrar do menino negro, filho de um pai analfabeto, que enfrentou dificuldades antes de se tornar uma das principais referências do pensamento negro brasileiro.

Essa talvez seja, para Lincoln Oliveira, a maior potência do espetáculo. Não representar um herói acabado, mas apresentar um percurso. Um caminho que começou muito antes do reconhecimento público e que continua produzindo novas perguntas em quem entra em contato com sua história.

Ao fim da conversa, o ator volta ao motivo que o faz permanecer no palco. Não fala em números, bilheteria ou alcance. Fala em deslocamento. “Se eu atingir dez, vinte ou trinta pessoas, já está ótimo. O pior é não incomodar ninguém. A pessoa precisa sair refletindo.”

É nessa possibilidade de provocar deslocamentos que Lincoln encontra sentido para interpretar Abdias do Nascimento. A cada apresentação, a história de um dos maiores intelectuais negros do país deixa de pertencer apenas aos livros, às universidades ou aos arquivos. Encontra novos ouvintes, novas perguntas e outras formas de permanecer viva.

Fotos: @laboratorio.zz

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Criado por Jadson Nascimento

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