Em entrevista, a poeta maranhense Danielle Freitas conta como a sua relação com a escrita poética se dá a partir de um pacto de liberdade.
Quando li “Asfixia” (Patuá, 2025), de Danielle Freitas, poeta maranhense estreante, notei ali um trabalho consistente. Vi que se tratava de uma poeta que, ao contrário de muitos que vêm surgindo, não levava a poesia a qualquer coisa. Havia um rigor na escrita, um cuidado com os versos e sobretudo com o tema. Freitas versou principalmente sobre temas como a violência contra as mulheres em seus diversos níveis, desde a violência física, à psicológica e sexual. Na época, cheguei a entrevistá-la para a revista O Odisseu, mas o nosso vínculo permaneceu. No n29 da revista O Odisseu, a autora publicou poemas autorais em que traz novas perspectivas da sua escrita, com um teor mais metalinguístico e poemas sobre a própria poesia.
Nesta segunda entrevista que faço com a autora, tento ampliar aquela primeira conversa ampliando mais sobre aquilo que me interessa em sua poesia agora que eu conheço mais. A consistência das respostas de Freitas me confirma o que já suspeitava desde que a li: estamos diante de alguém que tem estudado a poesia e suas possibilidades e se arriscando para encontrar a própria voz. Em termos de poesia, publicou seu primeiro livro já madura.
Confira o papo!
Danielle, a primeira vez que te entrevistei, para a revista O Odisseu, o seu livro Asfixia estava bem mais recente. Atualmente, com esse distanciamento temporal, como você tem visto o livro? A sua relação com ele mudou de alguma forma?
A relação muda porque eu também mudei. Hoje consigo olhar para Asfixia com menos ansiedade e mais generosidade. Quando um livro acaba de ser publicado, ele ainda está muito próximo do corpo de quem o escreveu. Com o tempo, ele ganha autonomia e passa a pertencer também aos leitores. Eu continuo reconhecendo naquele livro as questões que me mobilizam, a violência, o silenciamento, as formas de sobrevivência das mulheres, mas hoje consigo enxergar também as escolhas formais que talvez eu não percebesse naquele momento.
Paradoxalmente, ele permanece dolorosamente atual. Eu gostaria que alguns poemas tivessem envelhecido porque o retrato social havia mudado. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. O livro continua dialogando com um país em que a violência de gênero segue estruturando tantas vidas.

E em relação aos leitores? Conta um pouco dos feedbacks que você tem recebido.
Como acontece com a grande maioria dos escritores independentes, não vendi grandes quantidades de exemplares. Ainda assim, tive a sorte de receber um retorno muito imediato dos leitores. Muitas pessoas escreveram resenhas, indicaram o livro, compartilharam poemas nas redes sociais. Algumas pessoas me disseram que aquele havia sido o primeiro contato delas com a poesia e que, embora acreditassem não gostar do gênero, encontraram em Asfixia uma porta de entrada. Isso me fez perceber que a resistência muitas vezes não está na poesia em si, mas na imagem de inacessibilidade que se constrói em torno dela. Ainda existe uma tendência, em certos espaços literários, de apresentar a poesia como algo destinado apenas a quem domina determinados códigos ou pertence a círculos específicos. Quando ela é cercada por esse tipo de exclusividade, muita gente acredita que simplesmente “não é para ela”. Ver leitores descobrindo que podem se emocionar e se reconhecer em um poema é uma das descobertas mais gratificantes que esse livro me proporcionou.
O que mais me marca, porém, são os relatos de identificação. Muitas mulheres se reconhecem nos poemas e dizem que encontraram neles uma linguagem para aquilo que nunca haviam conseguido nomear. Isso aumenta muito o senso de responsabilidade. Em lançamentos, grupos de leitura ou pelas redes sociais, algumas compartilham histórias de violência, choram, pedem conselhos. É impossível não ser afetada por essa confiança. Ao mesmo tempo, aprendi que é preciso estabelecer uma fronteira ética. A literatura pode abrir um espaço de reconhecimento e elaboração, mas ela não substitui o cuidado psicológico nem outras redes de acolhimento. Procuro escutar com respeito, sem ocupar um lugar que não é o meu e, quando necessário, incentivo a busca por ajuda especializada, seja psicológica ou jurídica. Um poema pode nomear uma dor; ele não tem a obrigação de curá-la.
Também me alegra perceber que Asfixia suscita outras formas de leitura. Há leitores que comentam a construção dos poemas, a escolha das imagens, o ritmo e as próprias escolhas formais do livro. Isso é importante para mim porque mostra que a obra não se esgota no tema que aborda.
Outro aspecto que me chama atenção é o retorno de leitores homens que afirmam ter sido profundamente afetados pelo livro. Gosto quando eles participam dessas conversas porque isso reafirma que não se trata de um livro destinado apenas às mulheres. A violência contra as mulheres é um problema de toda a sociedade, e a literatura também pode convocar diferentes leitores para essa reflexão.
Muita coisa também mudou no plano político em relação ao tema central do seu livro, que é a violência contra a mulher. Por exemplo, tivemos o levante Mulheres Vivas que buscou denunciar com ênfase os recentes casos de feminicídio. Você tem acompanhado essas movimentações?
Tenho acompanhado essas mobilizações com muita atenção. Acredito que os movimentos sociais têm um papel fundamental porque conseguem transformar a indignação diante da violência em ação coletiva, denúncia e pressão por mudanças. O levante Mulheres Vivas, assim como tantos outros movimentos protagonizados por mulheres, é importante porque não permite que o feminicídio seja tratado como algo natural ou como uma estatística distante. Cada mulher assassinada revela uma estrutura de violência que ainda precisa ser enfrentada.
Ao mesmo tempo, percebo que esse debate também ganhou muita força no campo literário. Nos últimos anos, tivemos um número crescente de livros escritos por mulheres que abordam a violência de gênero, o silenciamento, as desigualdades e as formas de resistência. A literatura tem sido um espaço de elaboração dessas experiências e também uma forma de denúncia.
As redes sociais e os coletivos de mulheres ampliaram ainda mais essas vozes, criando espaços de compartilhamento de histórias e de mobilização. Para mim, tanto os movimentos sociais quanto a literatura cumprem uma função essencial: romper o silêncio, questionar estruturas de violência e reafirmar que a vida das mulheres importa.
A gente conversou bastante também sobre versar sobre a violência e sobre a brutalidade dos seus poemas. Mas esse não é o único tema da sua poética em geral. Nos poemas recentes que você publicou na revista O Odisseu, você traz outros aspectos como a poesia de metalinguagem. Fale um pouco desses poemas.
Sempre escrevi sobre a própria escrita, embora isso aparecesse menos em Asfixia. A metalinguagem me interessa porque escrever nunca é um gesto transparente. Pensar a poesia é, de alguma forma, pensar os próprios limites da linguagem. Esses poemas mais recentes investigam justamente essa tensão: o que pode um poema? O que ele alcança? O que fica de fora? Não vejo isso como uma ruptura em relação ao meu trabalho anterior, mas como uma ampliação do meu campo de investigação. Tenho me debruçado muito sobre essas questões. Nos intervalos da pesquisa do doutorado, tenho revisitado poemas da Sophia de Mello Breyner Andresen, Gilka Machado, Eunice Arruda, Maria Lúcia Dal Farra e da própria Orides Fontela, merecidamente homenageada da Flip deste ano, além de ler mais teoria sobre poesia e linguagem, especialmente autores como Ezra Pound e Octavio Paz. Como minha formação é em outra área, tenho buscado aprofundar meu repertório teórico em estudos de poesia e linguagem.
Essas leituras acabam alimentando novas perguntas sobre o poema e sobre o próprio gesto de escrever. Acho que toda leitura, mais cedo ou mais tarde, encontra uma forma de reaparecer na escrita.
Será que estamos diante de uma nova Danielle que, num livro próximo, publique um livro mais metalinguístico?
Ewerton, não sei se uma nova Danielle, mas estou permitindo que outras perguntas apareçam. Não gosto muito da ideia de abandonar um tema para assumir outro, porque acredito que a obra vai formando uma conversa entre diferentes livros, idéias e questionamentos. A metalinguagem não significa um afastamento do mundo. Pensar a linguagem também é pensar como construímos a realidade. Com certeza meu próximo livro dialogará diretamente com essas questões, sem deixar de lado as inquietações políticas e existenciais que sempre me acompanham.
Imagino que você tenha lido nas redes sociais um poema do palestino Marwan Makhoul em que ele versa sobre a impossibilidade de escrever poesia sobre outra coisa que não seja a guerra enquanto há guerra. De fato, no tempo atual, a poesia política exerce uma função muito importante e, diante dos absurdos, parece que está mais difícil versar sobre outras coisas. Me conta um pouco se você sente dificuldade de versar sobre outros temas ainda diante dessas dificuldades.
Não. Não sinto dificuldade de escrever sobre outros temas, porque acredito que a política não se restringe aos poemas que tratam explicitamente da guerra, do genocídio ou das injustiças sociais. Escrever sobre o amor, a memória, a infância, o desejo ou o cotidiano também é uma forma de afirmar aquilo que a violência tenta destruir. Os regimes de opressão quando atacam nossos corpos, eles tentam empobrecer a imaginação, interditar os afetos e reduzir o horizonte dos futuros possíveis. Preservar esses espaços na poesia também é um gesto político. Além disso, a própria escrita nunca foi um território neutro. Durante séculos, mulheres foram impedidas de escrever e de publicar, pessoas escravizadas tiveram o acesso à leitura e à escrita sistematicamente negado, povos inteiros foram silenciados e tiveram suas narrativas apagadas. Escrever, portanto, também é ocupar um espaço historicamente disputado. Para muitos sujeitos, o simples gesto de tomar a palavra já constitui um ato revolucionário.
Este poema do Marwan Makhoul me toca profundamente porque evidencia uma espécie de urgência ética da escrita. Essa é uma voz que precisa ser ouvida. Vejo esse poema como um chamado ao compromisso com aquilo que escrevemos. Há uma diferença entre escrever sobre uma guerra a partir da distância de quem a acompanha pelas notícias e escrever desde a experiência de quem a vive. A dor de imaginar perder um filho é uma; a dor de perdê-lo é outra. Ambas doem, mas não da mesma maneira. Por isso, quando escrevo poemas como os que integram Asfixia, o que existe é um eu lírico que imagina, escuta testemunhos, conversa com outras vozes e com outros poemas. A poesia não substitui a experiência do outro, mas pode construir um espaço de escuta, de testemunho e de elaboração. Também sei que todos os temas acabam marcados pelo tempo histórico em que vivemos. Existem momentos em que o mundo invade a linguagem de maneira incontornável. Mesmo um poema aparentemente íntimo carrega as marcas do seu contexto. Não acredito que exista uma separação tão nítida entre poesia íntima e poesia política. A história acaba encontrando a linguagem, mesmo quando ela parece falar de outra coisa.
Em seus poemas mais políticos, publicados em Asfixia, fica perceptível que você não rejeita o cuidado com a forma ao priorizar o tema. Como você concilia essas duas instâncias?
Esse antagonismo entre forma e conteúdo, para mim, não existe. Muitas vezes, dicotomias como forma e conteúdo, poesia política e poesia lírica, engajamento e elaboração estética acabam empobrecendo nossa leitura da literatura. Elas sugerem que um poema precisa escolher entre a força do que diz e a maneira como diz, quando, simplesmente, essas dimensões são indissociáveis. Além disso, essas classificações tendem a compartimentar a literatura em nichos, como se determinados temas interessassem apenas a determinados públicos. A boa literatura, independentemente do assunto que aborda, é capaz de atravessar essas fronteiras. Eu não compreendo forma e conteúdo como instâncias separadas. A forma também produz sentido. A maneira como um poema se organiza na página, como respira, interrompe uma frase, cria um silêncio ou escolhe determinadas imagens faz parte daquilo que ele está dizendo. Quando escrevo, não penso primeiro na mensagem e depois na forma. As duas coisas acontecem juntas.
Um poema político não se sustenta apenas porque aborda um tema importante; ele precisa encontrar uma dicção capaz de transformar essa realidade em acontecimento estético. Da mesma forma, um poema que se pretende apenas formal também nunca é neutro. A própria escolha da linguagem, do ritmo, da imagem e da estrutura já expressa uma maneira de olhar para o mundo.
Não acredito que exista uma poesia “pura”, desvinculada da história ou das relações de poder. Nesse processo, aprendi a confiar muito na edição, porque o poema exige rigor, escuta e reescrita, mas sem abandonar a intuição. Mesmo que tudo isso seja muito difícil. Quanto mais leio e estudo, mais exigente me torno com a minha própria escrita. Às vezes releio poemas já publicados e penso que hoje faria escolhas diferentes. A leitura amplia a consciência estética e isso pode nos tornar excessivamente vigilantes com o que escrevemos. Publicar, porém, também exige aceitar que cada poema pertence a um tempo da nossa formação. Ele registra quem éramos, o que líamos e as perguntas que éramos capazes de fazer naquele momento.
Por isso, tento conciliar rigor e intuição. Existe um núcleo da escrita que antecede qualquer explicação, uma espécie de impulso que pertence à voz de quem escreve. Se abandonamos isso em nome de uma ideia de perfeição ou de adequação, corremos o risco de perder justamente aquilo que torna um poema singular. Para mim, a técnica amplia as possibilidades da escrita; a intuição preserva a singularidade da voz. No fundo, o que persigo quando escrevo é uma forma em que tema e linguagem se encontrem, transformando uma questão em percepção sensível para quem lê.
Você nutre alguma expectativa de que a sua poesia pode alterar alguma coisa em relação ao mundo?
Eita Ewerton, essa pergunta sempre me coloca em uma espécie de encruzilhada: a poesia muda tudo e não muda nada. Ela não muda o mundo de maneira imediata. Se fosse assim, talvez muitos dos problemas humanos já tivessem sido resolvidos, porque a literatura acompanha a humanidade há séculos. Mas dizer que ela não muda nada seria ignorar a maneira como a poesia transforma sensibilidades, amplia percepções e cria possibilidades de imaginar outras formas de existência.
Antes de qualquer coisa, a poesia transformou a minha própria vida. O que acredito é que a literatura rompe a indiferença, devolve espessura àquilo que o cotidiano banaliza e nos convida a olhar de outro modo para o mundo. A poesia participa da formação de leitores mais atentos, porque amplia a capacidade de perceber nuances, contradições e diferentes formas de existência que muitas vezes permanecem invisíveis. Ela transforma a maneira como nos relacionamos com o outro e com aquilo que nos cerca. Por isso, nutro, sim, uma expectativa em relação ao alcance da minha poesia, embora seja uma expectativa modesta. Se ela conseguir produzir algo semelhante em alguém, já considero que alterou alguma coisa.
Digo isso também, e principalmente, pelo que vivi ao lançar um livro. Eu não havia me preparado anteriormente para a divulgação, a distribuição ou para ocupar as redes sociais de forma constante. Ainda assim, Asfixia encontrou seu caminho e seus leitores. Mais do que isso, o livro me colocou em contato com pessoas que talvez eu nunca tivesse conhecido de outra maneira. Conheci leitores, fiz amizades e participei de conversas que transformaram minha forma de pensar a literatura e o mundo. Inclusive você, que agora me entrevista pela segunda vez. Acho que a literatura também se mede pelos encontros que ela torna possíveis. Se um livro é capaz de criar encontros que antes não existiam, então ele já alterou alguma coisa no mundo.
Em um mundo exato, sem feminicídio ou guerra, você gostaria de versar sobre o quê?
Ewerton, que difícil…
Acho que continuaria escrevendo sobre a violência. Suspeito que essa seja uma obsessão minha. E me vem imediatamente um excerto da Mar Becker de que gosto muito. Ela já publicou algumas variações dele, mas são versos que sempre me contundem: “o amor fez frágeis demais minhas palavras / e eu agora temo feri-las de morte / sussurrando-as.” Há uma violência na delicadeza, no amor e no afeto.
Em um mundo exato, eu me ocuparia dessas outras formas de violência: a violência de habitar um corpo vulnerável, humano ou não; de existir entre outros seres; de criar vínculos, perdê-los e transformar-se. A violência de falar uma língua, de tentar nomear o sentir, de buscar pertencimento, de habitar as fronteiras entre corpo e pensamento. Há uma violência no amor e nas despedidas, no saber e no nunca saber.
Na verdade, eu já escrevo sobre tudo isso. Asfixia acabou sendo mais identificado pelos poemas que enfrentam diretamente a violência contra as mulheres, e isso faz sentido, porque aquela era uma urgência do livro. Esses outros temas, porém, sempre estiveram presentes na minha escrita. Nesse mundo hipotético, eles apenas deixariam de dividir espaço com uma realidade tão brutal. Ou seja, meus poemas não deixariam de dizer a violência; a violência é que mudaria de natureza.
Fotos: divulgação
