No Afrofuturismo em Movimento, Ana Paula Lemos e Rogério Augusto levam criação, identidade e reutilização de materiais para dentro do Recifran
Uma esteira de triagem de materiais recicláveis em São Paulo não costuma ser associada a uma passarela. No Afrofuturismo em Movimento, essa separação deixa de existir. Roupas encontradas no próprio espaço, acessórios, tintas e outros materiais que seriam descartados passam a compor figurinos criados pelos participantes do projeto, que depois ocupam a esteira onde trabalham diariamente para apresentar os resultados das oficinas.
A experiência realizada no Recifran, espaço de reciclagem, faz parte de um percurso iniciado em 2024 por Ana Paula Lemos e Rogério Augusto. O projeto nasceu dentro de uma eletiva na Escola Estadual Major Arcy e, depois da primeira experiência, passou por outras escolas e espaços culturais, entre eles a Escola Maria José, na Bela Vista, e as Fábricas de Cultura. A proposta parte do afrofuturismo para trabalhar identidade, criação, memória e possibilidades de futuro.
O projeto se organiza em oficinas nas quais os participantes primeiro entram em contato com o conceito de afrofuturismo e, depois, passam pela escolha e criação dos figurinos. Parte dos materiais vem de brechós e do próprio acervo construído pela equipe. Outros surgem durante as atividades. A criação é compartilhada entre os coordenadores, familiares, amigos, ex-alunos e os próprios participantes.
No Recifran, essa dinâmica ganhou outra dimensão. Até então, o público do projeto era formado majoritariamente por estudantes de escolas públicas. Levar as oficinas para um espaço de trabalho com reciclagem significou encontrar pessoas com outras histórias e relações diferentes com a roupa, o corpo e a própria imagem.


Rogério Augusto conta que a proposta inicialmente parecia inusitada, mas rapidamente encontrou espaço entre os trabalhadores.
“Foi interessante e desafiador porque ali tinha uma quantidade de material e pessoas que tinham histórias muito bonitas, pessoas que traziam memórias, que traziam histórias, muitas vezes de não ter essa oportunidade da autoestima, de ser reconhecido, de poder vestir uma roupa que se sinta à vontade.”
A mudança também aconteceu no próprio espaço. Para a realização do desfile, o pátio onde os materiais recicláveis costumavam ser acomodados precisou ser esvaziado. Ana Paula lembra que havia trabalhadores que estavam no Recifran havia anos e nunca tinham visto aquele lugar daquela maneira.
A esteira, então, deixou de ser somente parte do cotidiano de trabalho. Tornou-se cenário, passarela e lugar de criação.
Eles acharam, desde o princípio, a ideia de desfilar em cima da esteira muito atraente. Você não só pertence àquilo, você trabalha, passa o dia movimentando aquilo, como também pode transformar aquilo em algo esteticamente bonito.

Quando o que seria descartado vira criação
A transformação não aconteceu somente no dia do desfile. Segundo Ana Paula, ela podia ser percebida a cada oficina. Os trabalhadores começaram a observar os materiais que passavam pela esteira de outra maneira. Roupas, óculos e objetos encontrados durante o trabalho passaram a ser separados para integrar os figurinos.
As tintas spray utilizadas nas atividades também produziram uma mudança visível. Assim que chegaram, os participantes começaram a experimentar com as roupas e outros materiais.
Eles saíram pintando tudo. Pegavam as roupas, pintavam. A gente entendeu que aquilo era pertencimento.
O processo fez com que os participantes deixassem de ocupar apenas o lugar de quem recebia uma atividade. Eles passaram a interferir diretamente na construção das peças. Ana Paula lembra de uma trabalhadora, Dona Sil, que passou a separar roupas e outros objetos encontrados durante a triagem para serem utilizados nas oficinas.
Essa relação com o que seria descartado também aproxima o projeto de uma discussão sobre sustentabilidade. Os materiais não chegam prontos para se transformar em figurino. São encontrados, selecionados, modificados e combinados pelos participantes.




A experiência do Afrofuturismo em Movimento, porém, não se resume à criação de roupas. Em diferentes edições, o projeto provocou mudanças na maneira como participantes negros passaram a perceber seus corpos, seus cabelos e suas possibilidades de ocupar espaços.
Uma dessas histórias ficou marcada para Ana Paula. Uma ex-aluna que participou das oficinas há alguns anos contou que passou a gostar do próprio cabelo depois de participar dos desfiles. Ela havia passado muito tempo raspando ou alisando os fios. Com as oficinas e a convivência proporcionada pelo projeto, começou a construir outra relação com a própria aparência.
Ela falou que aprendeu a gostar do cabelo a partir das oficinas e dos desfiles. E hoje ela tem essa apropriação da própria estética. Ela gosta do cabelo dela.
A história ajuda a entender por que o projeto trabalha com o corpo e a imagem sem tratá-los como elementos secundários. Para Ana Paula, criar um figurino, experimentar uma maquiagem ou desfilar também pode abrir espaço para que uma pessoa repense a maneira como se enxerga.
Esse processo aparece nos relatos de participantes que passaram pelo projeto. Nicole Assumpção conta que as atividades ajudaram a diminuir a vergonha de ocupar determinados espaços, falar em público e desfilar. Para ela, a experiência também ampliou a percepção sobre as próprias possibilidades.


O fotógrafo Victor Herege, que acompanhou o projeto, resume sua experiência pela sensação de orgulho de ter participado de uma iniciativa que considera capaz de transformar a vida das pessoas. Já Martin Jessol, que participou durante o período escolar, destaca a dimensão coletiva da experiência. Para ele, ver uma comunidade escolar parar para assistir ao desfile de estudantes negros produz uma ruptura importante com as experiências cotidianas de falta de autoestima e de representação.
O projeto também cria espaços de troca que extrapolam o momento do desfile. Conversas sobre cabelo, identidade, referências culturais e criação surgem durante a produção dos figurinos. O trabalho manual aproxima estudantes, professores e participantes e produz relações que dificilmente apareceriam em uma atividade escolar convencional.
Imaginar o futuro a partir do que existe
É nesse ponto que o afrofuturismo deixa de ser somente uma referência estética. No projeto, imaginar futuros possíveis passa pela possibilidade de reconhecer a própria existência no presente.
As oficinas partem de materiais usados, roupas de brechó e objetos encontrados na triagem. O que já teve uma função ganha outra. O que seria descartado passa a carregar uma nova história. Os participantes também fazem esse movimento ao construir outras relações com seus corpos, suas identidades e os lugares que ocupam.
Para Ana Paula e Rogério, a experiência no Recifran ampliou o próprio entendimento sobre o projeto. O público já não era formado somente por estudantes. Trabalhadores da reciclagem passaram a participar do processo criativo, trazendo suas histórias e experiências para dentro da proposta.





A escolha do espaço também deslocou a ideia convencional de onde a arte pode acontecer. O desfile não precisou de um teatro, de uma galeria ou de uma passarela construída para esse fim. A esteira de triagem foi suficiente.
O percurso iniciado em uma escola em 2024 continua sendo ampliado por essas experiências. Ao falar sobre o futuro do Afrofuturismo em Movimento, seus criadores apontam para a continuidade das oficinas, dos encontros e das possibilidades de levar o projeto a outros territórios.
A ideia de movimento está, portanto, no próprio método. O projeto muda de espaço, encontra novos participantes e transforma os materiais que encontra pelo caminho. No Recifran, essa transformação ganhou uma imagem precisa: trabalhadores que passam os dias separando aquilo que foi descartado passaram a selecionar, criar, vestir e desfilar com essas mesmas coisas.
A esteira continuou no mesmo lugar. O que mudou foi o que ela passou a representar.
Fotos: Victor Herege
