Uma Bienal cheia de livros e vazia de repertório

Vídeo que circula nas redes ao perguntar a jovens leitores o nome de dois autores negros expõe uma questão que vai além de uma brincadeira e alcança escola, universidade e formação literária no Brasil

Uma pessoa para. Pensa. Olha para o lado. Tenta lembrar de algum nome. Outra arrisca um, mas não consegue chegar ao segundo. Em outro momento, uma jovem sugere que talvez fosse mais fácil responder se a pergunta fosse sobre autores asiáticos. A dinâmica parecia simples. Valendo um livro, cite dois autores negros.

O vídeo publicado pelo influenciador Luan Rushel, gravado durante a Bienal do Livro de São Paulo, ganhou repercussão justamente pela dificuldade encontrada por quem passava diante da câmera. Não se trata de cobrar de jovens uma lista decorada de escritores. O incômodo está em outra parte. O que significa estar em uma das maiores festas literárias do país, cercado por milhares de livros e leitores, e ainda assim ter dificuldade para lembrar de dois autores negros?

A pergunta é desconfortável porque não deveria ser difícil.

Conceição Evaristo está na Bienal. Itamar Vieira Junior também. José Falero, Alê Santos, Bárbara Carine e Jeferson Tenório estão entre os nomes negros presentes na programação desta edição. São autores de diferentes gerações, estilos e públicos, com livros que circulam pelas livrarias, escolas, universidades e redes sociais.

Fora da programação da feira, existe uma tradição literária que atravessa séculos. Carolina Maria de Jesus escreveu Quarto de Despejo. Maria Firmina dos Reis publicou Úrsula no século XIX. Lima Barreto deixou romances como Triste Fim de Policarpo Quaresma. E Machado de Assis, cuja presença na história da literatura brasileira é incontornável, ainda é muitas vezes apresentado sem que sua negritude ocupe o mesmo espaço que sua genialidade.

A lista contemporânea também está longe de terminar. Conceição Evaristo, com Ponciá Vicêncio e Olhos d’Água. Itamar Vieira Junior, com Torto Arado. Jeferson Tenório, autor de O Avesso da Pele. Djamila Ribeiro, com Pequeno Manual Antirracista. São livros que alcançaram grande circulação e autores que ocupam diferentes espaços do debate público e literário.

Fora do Brasil, a biblioteca também poderia crescer bastante. Toni Morrison, James Baldwin, Maya Angelou, Audre Lorde, Ralph Ellison, Langston Hughes, Octavia Butler, Alice Walker, Chimamanda Ngozi Adichie, Chinua Achebe e Ngũgĩ wa Thiong’o são apenas alguns dos nomes possíveis. Autores de diferentes épocas, países e gêneros literários, cuja produção atravessou fronteiras e chegou a leitores de diferentes gerações.

Ainda assim, para uma parcela dos jovens que aparece no vídeo, dois nomes parecem uma tarefa difícil.

É aqui que a discussão deixa de ser sobre o desempenho de quem foi abordado e passa a ser sobre repertório. O Brasil não enfrenta apenas uma crise de leitura. A Retratos da Leitura no Brasil, pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro, mostrou em 2024 que 53% da população não havia lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. Entre os leitores, a média foi de 4,36 livros no mesmo período.

Mas quantidade de leitura não explica tudo. É preciso perguntar o que chega às mãos de quem está formando seu repertório. Quais autores aparecem nas escolas? Quem é leitura obrigatória? Quem entra nas bibliografias das universidades? Quem aparece como literatura e quem surge apenas quando o assunto é racismo, escravidão ou identidade?

A Lei 10.639, de 2003, tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e determinou que esses conteúdos fossem trabalhados em todo o currículo, com atenção especial às áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. Passadas mais de duas décadas, a existência da lei não responde sozinha à pergunta sobre o que efetivamente chega à sala de aula.

Porque uma coisa é saber que existe uma literatura negra. Outra é crescer cercado por ela.

O caso de O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, ajuda a dimensionar essa discussão. Um romance contemporâneo, escrito por um autor negro, que alcançou leitores em diferentes partes do país e entrou no debate escolar. Quando um livro como esse chega às escolas, ele não está apenas apresentando uma história. Está ampliando a possibilidade de um jovem reconhecer outras experiências, outras vozes e outras formas de narrar o país.

Talvez seja por isso que o vídeo da Bienal incomode tanto. Ele funciona como uma pequena prova de memória coletiva. Quando alguém não consegue citar dois autores negros, não significa necessariamente que não leia ou que não tenha interesse por literatura. Significa que há alguma coisa sobre o caminho percorrido por esses nomes até chegar ao leitor que merece ser investigada.

A Bienal deste ano espera receber mais de 700 mil visitantes. É uma multidão diante de livros, autores, editoras e encontros. E talvez exista aí uma contradição que merece ser encarada. Uma feira pode estar cheia de livros e, ainda assim, revelar o quanto determinados repertórios continuam vazios.

Não é uma questão de substituir Machado por Conceição, Lima Barreto por Itamar ou literatura europeia por literatura africana. A discussão é justamente sobre ampliar a biblioteca mental de quem lê. Um jovem não deveria precisar escolher entre conhecer Machado de Assis ou Carolina Maria de Jesus, entre ler Clarice Lispector ou Conceição Evaristo, entre descobrir Shakespeare ou Toni Morrison. Quanto maior a biblioteca, maior deveria ser o mundo possível dentro dela.

No fim, a pergunta do vídeo não é apenas “cite dois autores negros”. Talvez seja outra, bem mais difícil de responder.

Quem escolheu os livros que nos ensinaram a chamar de literatura?

A Bienal está cheia. Os livros estão ali. Os autores também. A questão é saber quem, afinal, está chegando até o leitor.

Foto: divulgação/Bienal do Livro

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Criado por Jadson Nascimento

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