Após temporada no México, mostra inspirada no Bembé do Mercado segue circulação internacional e chega a Nova York com pesquisa construída a partir de cinco anos de registros sobre a manifestação de Santo Amaro.
Depois de passar pelo México, a exposição Bembé: A Festa dos Olhos do Rei, do artista visual, fotógrafo e pesquisador baiano Roque Boa Morte, segue sua circulação internacional com destino aos Estados Unidos. A próxima etapa será realizada na CUNY – City College of New York, onde o artista também desenvolve parte de sua produção, ampliando o percurso de um trabalho construído a partir de uma pesquisa dedicada ao Bembé do Mercado, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano.
A mostra reúne 38 fotografias selecionadas de um acervo formado ao longo de cinco anos de pesquisa de mestrado desenvolvida na Universidade Federal da Bahia. O projeto propõe um percurso visual inspirado na organização espacial do Bembé e apresenta registros produzidos a partir da convivência com a comunidade responsável pela realização da manifestação.
Créditos: Maritza Cuevas
Antes de chegar aos Estados Unidos, a exposição ocupou o Museo Morelense de Arte Contemporáneo Juan Soriano, em Cuernavaca, no México. A curadoria é assinada pela antropóloga Jamile Borges, vice-reitora da Universidade Federal da Bahia e pesquisadora ligada ao Centro de Estudos Afro-Orientais da instituição, que acompanhou a construção conceitual da mostra desde sua primeira montagem.
Ao longo da circulação internacional, o trabalho aproxima públicos de diferentes países de uma pesquisa que articula fotografia, memória e direito à imagem, tendo como ponto de partida uma das manifestações culturais mais importantes da Bahia.
Em entrevista concedida ao Portal Diáspora diretamente do México, Roque Boa Morte falou sobre o processo de criação da exposição, os diálogos construídos durante a passagem pelo país e as perspectivas para a chegada da mostra aos Estados Unidos.
Confira a entrevista exclusiva concedida ao Portal Diáspora.
A exposição “Bembé: A Festa dos Olhos do Rei” marca sua primeira individual internacional. Como foi transformar uma celebração tão enraizada em Santo Amaro em uma experiência visual pensada para um público no México?
Sim, é a minha primeira individual fora do Brasil e ela está acontecendo com o tamanho e o impacto que eu esperava, em um museu incrível como o MMAC. Apesar de ser um trabalho sobre uma celebração muito específica, tanto pela singularidade do ritual quanto pelas características da comunidade que a realiza, ela dialoga muito com as experiências dos povos originários americanos como um todo, inclusive do México, além dos povos afro-mexicanos, frente à colonialidade, que não acabou. No caso da minha abordagem: a colonialidade visual. Então, é um campo fértil para trocas estéticas e acadêmicas importantes, que já estão ocorrendo.
Após temporada no México, mostra inspirada no Bembé do Mercado segue circulação internacional e chega a Nova York.
Você reuniu mais de nove mil imagens ao longo de cinco anos de pesquisa sobre o Bembé do Mercado. O que guiou a escolha das 38 imagens que compõem a mostra no MMAC?
Trabalho muito difícil, mas orientado pela guiança magistral da minha curadora, a Dra. Jamile Borges, atual vice-reitora da UFBA, então coordenadora do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO/UFBA), primeiro desta natureza na América Latina. A ideia era ter uma amostra equalizada do conjunto, levando em consideração a temporalidade que envolve a celebração, que dura 7 dias; seus atos principais, anteriormente fixados na pesquisa; e os sujeitos que a realizam, verdadeiros portais para se entender o Bembé.
A exposição mistura fotografia, pesquisa acadêmica e expografia inspirada nos rituais do Bembé. Como você pensou essa concepção espacial e sensorial para além do formato tradicional de uma exposição fotográfica?
Foi algo pensado em conjunto. A primeira decisão foi que a exposição tinha que acontecer antes de tudo na minha terra. Eu queria devolver para os detentores da celebração o que desenvolvi tão cuidadosamente para eles, então tinha que ser uma expografia que aportasse no Mercado, dentro do Bembé, sem fricção, sem reproduzir estruturas estéreis museais que brigariam com a dinâmica do que acontece naquele espaço dia após dia. A segunda decisão foi que as obras teriam escala grande, pois eu queria que as pessoas se vissem como nunca haviam se visto, em tamanho e envergadura negados a elas durante mais de cem anos de festejo. A terceira, amparada nas duas anteriores: a expografia tinha que refletir construções visuais e significados já elaborados pela comunidade que faz o Bembé. A solução estava sobre nossas cabeças, bastou olhar para cima e perceber que as memórias visuais do Bembé que mobilizo deveriam partir do Orun para o Ayê, como as bandeiras do barracão litúrgico. O que foi feito.
Roque Boa Morte leva exposição do Bembé aos Estados Unidos
O Bembé do Mercado é patrimônio imaterial da Bahia e reúne dezenas de terreiros em celebrações públicas. Que aspectos da ancestralidade e da memória afro-diaspórica você mais quis destacar para o público internacional?
O Bembé é o primeiro e maior candomblé de rua do mundo. Ele é realizado em festejo único pela comunidade de santo de Santo Amaro desde 1889. Uma celebração que, por sua própria natureza, reflete o poder dessa população de, em solo estranho, submetida à violência colonial e capital, manter a sua fé, reinventar as bases de sua existência e identidade cultural. Então, um dos principais elementos mobilizadores da exposição é refletir sobre nossa capacidade de autodeterminação através do emprego de uma força lenta e constante, que atravessa o século, possibilitando a resistência com beleza de uma comunidade marginalizada.
Estar em Cuernavaca, em um museu de arte contemporânea latino-americano, muda a forma como você percebe o diálogo entre culturas afro-diaspóricas das Américas? Que encontros ou leituras novas surgiram nessa experiência?
Completamente. Eu queria vir/estar aqui primeiro. Acredito que o Brasil precisa se aproximar mais do México, inclusive foi o que ouvi de muitos visitantes da exposição, fascinados pelo que estavam vendo e sentindo pela primeira vez. Temos muito que dialogar e intercambiar, e essa troca não tem acontecido. São muitos os aspectos a serem englobados nessa relação, mas destaco um: entender esse espaço que ocupamos chamado América a partir de bases pré-coloniais.
Sua trajetória reúne arte visual, antropologia visual e defesa do direito à imagem. De que maneira essa exposição também funciona como um gesto político de preservação e circulação das memórias negras?
O direito à imagem, para mim, é, antes de tudo, uma questão civilizatória. Durante mais de cem anos, o Bembé existiu sem que houvesse um registro visual sistemático, produzido de dentro, com olhar comprometido com a comunidade que o realiza. Isso não é acidente, é o resultado direto do apagamento histórico que incidiu sobre tudo que diz respeito à cultura e à religiosidade negra no Brasil. Quando eu decido fazer isso com o rigor de uma pesquisa de mestrado, estou operando simultaneamente em pelo menos três frentes: a da preservação (porque estou documentando para que não se perca; a da circulação (porque estou garantindo que essa memória atravesse fronteiras que historicamente foram negadas ao povo negro); e a da contra-narrativa (porque estou colocando o povo do Bembé no tamanho que ele sempre teve, mas que raramente lhe foi permitido ocupar visualmente). O México é o segundo país com mais museus da América Latina. o Brasil é o primeiro. Não é pouca coisa que sejam exatamente esses dois países os que lideram esse ranking. E não é coincidência que seja num museu mexicano que essa memória afro-brasileira encontre uma audiência tão receptiva e tão faminta por esse diálogo. Isso também é político. Escolher onde uma memória circula é um ato de poder. E eu escolho que ela circule nos melhores espaços possíveis, porque é o que ela merece, e porque é o que a comunidade que a produz merece.
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