Mestre em Música pela Unicamp, trombonista, compositor e pesquisador reflete sobre diáspora, autoria negra, mercado musical e os caminhos para fortalecer a produção artística a partir da própria memória.
Há artistas que chegam à pesquisa pela universidade. Outros fazem o caminho inverso. No caso de Allan Abbadia, as duas trajetórias passaram a caminhar juntas quando ele percebeu que aquilo que construía nos palcos, nos estúdios e nas rodas de samba também carregava perguntas que mereciam ser investigadas. O processo criativo, antes intuitivo, ganhou novas camadas durante o mestrado em Música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde passou a aprofundar os estudos sobre as musicalidades afro-diaspóricas sem romper com o lugar de onde sempre partiu. A periferia de Itaquera, na zona leste de São Paulo.
Ao longo de 25 anos de carreira, o trombonista, compositor, produtor e arranjador colaborou com artistas como Elza Soares, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Luiz Melodia, Zeca Pagodinho, Emicida, Racionais MC’s, Liniker, João Donato, Jards Macalé, Moacyr Luz, Nei Lopes, João Bosco e Zeca Baleiro. Também assinou arranjos para projetos como AmarElo Ao Vivo, de Emicida, produziu discos como Funmilayo, da Funmilayo Afrobeat Orquestra, e Bicudos, do grupo Os Bicudos, compôs trilhas para o cinema e participou do álbum Serotonina, de João Donato, vencedor do Grammy Latino em 2023.
Sua discografia também acompanha esse percurso. Em Malungos (2019), vencedor do primeiro Prêmio Pretas Potências, aparecem temas ligados ao território, à ancestralidade e às culturas populares brasileiras. Em IFÈ (2023), a pesquisa ganha outra densidade e passa a dialogar diretamente com os estudos desenvolvidos na universidade. Paralelamente, Abbadia criou o selo Atlântico Sul Music e é um dos idealizadores do Melanina Jazz, projeto que reivindica o protagonismo negro na história e na produção contemporânea do jazz brasileiro.

Para ele, essa trajetória nunca foi uma mudança de direção. Foi um aprofundamento.
“Entrei na academia durante a pandemia, quando comecei o mestrado. Minha pesquisa era sobre o Raul de Barros, mas, no meio do caminho, mergulhei na produção do IFÈ. As aulas do Letieres Leite atravessaram completamente esse processo. O disco acabou sendo dedicado ao Pixinguinha, ao Abigail Moura e ao Letieres. Quando terminei o álbum, falei para mim mesmo que era hora de voltar e concluir a pesquisa.”
O trabalho acadêmico acabou modificando o próprio entendimento sobre sua produção artística. Em vez de enxergar música e pesquisa como campos separados, Allan passou a compreender que ambos registram experiências produzidas por uma mesma memória coletiva.
“Acho que mudar o foco da pesquisa foi a melhor decisão que tomei. Ela acabou virando um complemento da minha obra, porque quem escrever sobre o meu trabalho lá na frente também vai precisar olhar para essa pesquisa. A gente transforma em música toda essa carga cultural que carrega. Somos fruto de um contexto histórico.”
Um disco feito para os nossos
Ao revisitar Malungos, Allan percebe que muitas questões que hoje aparecem de forma explícita em sua pesquisa já estavam presentes nas composições.
O álbum começa com Choro pro Moura, atravessa referências ao samba, ao ijexá, ao baião e ao choro, passa por Baião dos Malês, inspirada na Revolta dos Malês, e chega a De Itaquera a Madalena, reflexão sobre deslocamentos sociais e urbanos. A trilogia dedicada ao Cais do Valongo, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial por preservar vestígios do principal porto de chegada de africanos escravizados nas Américas, reforça a centralidade da diáspora na narrativa do disco.
Para Allan, porém, a origem dessa construção antecede qualquer pesquisa acadêmica.
“Quem estuda trombone normalmente é conduzido para uma tradição europeia, é como se instalassem um chip na pessoa. Eu tive muita sorte porque cresci mergulhado nas culturas populares, comecei minha carreira nas rodas de samba, convivendo com musicalidades pretas, então minha pesquisa nasce desse lugar. As nossas musicalidades sempre tiveram erudição. Durante muito tempo, ninguém reconhecia a complexidade que existia numa escola de samba, chamavam aquilo simplesmente de batuque, mas a erudição da minha obra está na nossa musicalidade. Quando gravei Malungos, pensei que queria ouvir a minha comunidade se emocionando, fiz um disco para os meus, para os nossos, e sinto essa identificação até hoje.”
A construção de sua pesquisa também nasce de uma inquietação sobre quem escreve as histórias da população negra. “Quando não está no estereótipo, está na dilaceração da carne. Eu pensei que nós mesmos precisávamos escrever sobre a gente. Existe um lugar humanizado nessa escrita.”
A fala sintetiza uma crítica recorrente aos modos como intelectuais e artistas negros foram historicamente representados na produção acadêmica e cultural brasileira. Em vez de aparecerem apenas como objeto de violência ou exotização, Allan defende que suas experiências sejam registradas a partir de perspectivas produzidas por quem vive essas trajetórias.

Construir os próprios caminhos
Ao perceber que a criação artística também depende das estruturas construídas ao redor dela, Allan Abbadia passou a atuar em outras etapas da cadeia musical. Em 2022, ao lado do músico e produtor Maurício Pazz, criou a Atlântico Sul Music, selo dedicado ao lançamento de artistas negros e de trabalhos conectados às musicalidades do Atlântico Sul.
A iniciativa nasceu de uma inquietação que acompanha sua trajetória: a necessidade de que artistas tenham mais autonomia sobre a forma como suas obras chegam ao público. Para Allan, o lançamento de um disco envolve uma série de escolhas que também fazem parte da construção artística.
“A gente grava um disco, mas, quando vai lançar, ele acaba caindo na mão de alguém que nem sempre entende os nossos interesses. Com o selo, a gente consegue contextualizar esse trabalho, porque somos um selo de artistas negros, trabalhando com as musicalidades do Atlântico Sul, com essas referências e com essa história.”
O catálogo da Atlântico Sul Music já reúne mais de vinte lançamentos, entre álbuns e singles, incluindo trabalhos da cantora Izzy Gordon, em homenagem a Jorge Aragão, e do flautista Leandro Tigrão. Para Allan, a proposta é fortalecer uma rede de artistas que compartilham experiências e referências ligadas à diáspora africana.

Essa mesma perspectiva atravessa o Melanina Jazz, projeto criado por Allan ao lado do baterista Thiago Sonho e do artista visual Flávio Benatti. A iniciativa une música, imagem e audiovisual para investigar as conexões afro-diaspóricas presentes no jazz e discutir o lugar dos artistas negros na construção desse gênero.
O caminho antes da chegada
Nos minutos finais da entrevista, Allan volta a um tema que atravessa toda a conversa. Em uma época marcada pela velocidade das redes sociais e pela lógica dos grandes números, ele acredita que o processo de formação dos artistas passou a receber menos atenção do que o resultado.
As plataformas digitais, observa, costumam destacar quem já alcançou grande visibilidade. Pouco se fala sobre os anos de estudo, de experimentação e de trabalho que antecedem esse reconhecimento. Para explicar essa percepção, recorre novamente a Letieres Leite.
“Antes da Orkestra Rumpilezz, o Letieres fez arranjos para Daniela Mercury, Ivete Sangalo e tantos outros artistas. Quando a gente valoriza só a chegada, esquece que existe uma caminhada até lá.”
Entre as rodas de samba em Itaquera, a pesquisa acadêmica, os discos autorais, as trilhas para o cinema e os projetos coletivos, Allan Abbadia construiu uma trajetória em que criação, memória e investigação caminham juntas. Cada etapa desse percurso amplia a anterior e revela uma mesma busca: compreender a música como expressão de experiências, territórios e histórias negras.
Ao transformar vivências em composição e composição em pesquisa, Allan também constrói um registro das experiências afro-diaspóricas no presente. Sua obra dialoga com memórias ancestrais, mas também com questões urgentes da contemporaneidade, como os caminhos de circulação, permanência e reconhecimento dos artistas negros no mercado cultural.

Por isso, quando fala sobre o futuro, o músico desloca o olhar das conquistas individuais para as estruturas que podem permanecer depois de uma obra lançada, de um show realizado ou de uma pesquisa concluída. A Atlântico Sul Music, o Melanina Jazz, as produções assinadas para outros artistas e sua investigação acadêmica fazem parte de um mesmo movimento: criar espaços para que novas histórias possam ser construídas, registradas e compartilhadas.
Fortalecer essas redes, para ele, significa ampliar as possibilidades para que outros músicos encontrem caminhos menos solitários do que aqueles percorridos pelas gerações anteriores. Afinal, como a própria trajetória demonstra, uma obra não se sustenta apenas pelo que se ouve. Ela também permanece nas histórias que ajuda a contar e nas portas que abre para quem vem depois.
Fotos: Mari Ser e Fernanda Assis
