Idealizadora do Mainha’s Party, Rachel Moreira discute como maternidade, trabalho, renda e desigualdade racial interferem no direito das mulheres ao lazer.
Por algumas horas, ninguém precisa resolver nada. Não há filho para buscar, conta para pagar, trabalho para entregar ou casa para organizar. A ideia parece simples, mas é justamente aí que Rachel Moreira encontrou uma questão que raramente aparece quando se fala sobre maternidade: o que uma mulher faz quando não precisa estar fazendo alguma coisa?
Foi dessa pergunta que nasceu o Mainha’s Party, experiência de lazer, cultura e convivência criada por Rachel para mulheres adultas, especialmente mães. A primeira edição aconteceu em 4 de outubro de 2025, no Boteco da Tetê, em Salvador, e reuniu cerca de 60 mulheres. O projeto recebeu um nome que resume sua proposta: “diversão sem função”.
Rachel, mentora e consultora de mulheres empreendedoras e fundadora da Inspiraiê, não apresenta a festa como resposta para um problema que é muito maior do que uma noite de diversão. A proposta parte de uma percepção sobre a vida cotidiana. Há mulheres que passam tanto tempo cuidando, trabalhando e garantindo que tudo funcione que o tempo dedicado a si mesmas acaba tratado como algo que pode esperar. E quase sempre espera.
Uma pesquisa da Nexus, em parceria com o Ministério do Turismo, ajuda a dimensionar essa distância. Metade das mães solo nunca viaja a lazer, enquanto entre os pais solo o índice é de 37%. O dado fala de viagens, mas a questão que interessa a Rachel começa antes de fazer uma mala. Para sair, é preciso encontrar quem fique com os filhos. É preciso ter dinheiro, transporte, tempo e, muitas vezes, uma rede de apoio capaz de sustentar a ausência.

A espera não acontece da mesma maneira para todas
Entre mulheres negras, o acesso ao tempo livre está relacionado a desigualdades econômicas que também determinam as possibilidades de trabalho, consumo, circulação e acesso à cultura. Dados do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2025 apontam que cerca de 70% dos domicílios chefiados por mulheres negras vivem com renda de até um salário mínimo. Dados do IBGE mostram ainda que 41,3% das mulheres pretas ou pardas estão abaixo da linha da pobreza.
Quando o dinheiro é curto, lazer deixa de ser apenas uma questão de agenda. Uma atividade cultural pode envolver transporte, alimentação, ingresso e alguém que fique com as crianças. Uma viagem exige ainda mais. Mesmo uma saída gratuita pode não ser gratuita para quem precisa reorganizar a casa inteira para conseguir algumas horas fora dela.
É nesse cruzamento entre dinheiro, cuidado e tempo que Rachel coloca a experiência das mães negras. O dado sobre as empreendedoras também ajuda a dimensionar essa sobreposição. Segundo levantamento da Nexus citado, 73% das empreendedoras negras são mães e metade delas é mãe solo.
A geração de renda e o cuidado dos filhos, portanto, podem estar concentrados na mesma pessoa
Foi observando essa rotina que Rachel começou a pensar no Mainha’s Party. A inspiração veio de uma referência que recebeu sobre clubes voltados para mães. A ideia, entretanto, não era criar um espaço para falar sobre maternidade durante algumas horas. Era justamente oferecer um intervalo dela. Não que a maternidade desapareça. Ela apenas deixa de organizar cada minuto.
“A gente construiu uma ideia de que a boa mãe é aquela que está sempre disponível, cuidando, produzindo e resolvendo alguma coisa”, diz Rachel. A cobrança pode continuar mesmo quando existe uma rede de apoio. “Muitas mães ainda se sentem culpadas por se divertir ou por escolher um momento para si.”
É uma culpa que transforma o lazer em negociação. Se uma mulher dança, conversa com amigas ou passa algumas horas fora de casa, pode surgir a sensação de que deveria estar fazendo outra coisa. O tempo precisa ser compensado, explicado ou justificado. Rachel quer deslocar essa lógica.
“Ela pode ser mãe, profissional, empreendedora, responsável pela casa e ainda assim precisar de algumas horas para dançar, conversar, encontrar outras mulheres e simplesmente se divertir”, ressalta.
A escolha da palavra “simplesmente” é importante. Não há produtividade escondida na proposta. Não é uma palestra, uma formação profissional, uma atividade para melhorar o desempenho no trabalho ou uma estratégia para que a mãe volte mais disposta às tarefas domésticas. É lazer.
Essa ideia também ajuda a entender por que a discussão não pode ser reduzida à existência ou ausência de vontade de sair. A mulher pode querer viajar e não ter dinheiro. Pode ter dinheiro e não ter com quem deixar os filhos. Pode ter apoio e ainda carregar culpa. Pode encontrar uma atividade gratuita e não ter transporte ou tempo para chegar até ela.
Para mulheres negras, as barreiras materiais se somam às desigualdades que já atravessam o trabalho e a renda. Por isso, discutir o direito ao lazer exige perguntar quem consegue acessar os espaços onde a cultura e a diversão acontecem e em quais condições.
Rachel não ignora essa dimensão ao falar sobre o próprio projeto. Pelo contrário. Ela rejeita a ideia de que uma festa seja suficiente para resolver uma desigualdade estrutural.

“O Mainha’s Party é uma provocação, uma experiência que parte de uma realidade que eu observo, mas o acesso ao lazer depende de renda, rede de apoio, transporte e de uma mudança na forma como enxergamos o tempo das mulheres.”
A provocação está também na comparação com aquilo que a sociedade costuma aceitar como natural para os homens. Algumas horas jogando bola, encontrando amigos ou simplesmente saindo de casa dificilmente precisam ser apresentadas como uma escolha entre lazer e responsabilidade familiar. Para uma mãe, o mesmo tempo pode carregar outra medida de cobrança.
“Se a sociedade consegue naturalizar que um homem tenha algumas horas para jogar bola, encontrar os amigos ou sair, também precisamos naturalizar que uma mãe possa fazer isso sem precisar justificar o tempo que está dedicando a si mesma”, diz Rachel.
O Mainha’s Party nasceu em Salvador, mas a pergunta que o colocou de pé é maior que uma festa. Quem tem direito a algumas horas sem função?
A resposta passa por condições bastante concretas. Renda. Trabalho. Rede de apoio. Transporte. Acesso à cultura. E passa também pela maneira como a maternidade é cobrada das mulheres. Para as mães negras, essas questões se encontram em um terreno marcado por desigualdades econômicas. O lazer, nesse caso, não é apenas aquilo que acontece depois que todas as obrigações terminam. É também uma possibilidade que precisa existir antes delas.
Talvez por isso Rachel insista que uma mulher não precisa transformar o próprio tempo em investimento para merecê-lo.
“Lazer também é cuidado, e não deveria ser tratado como luxo, culpa ou falta de prioridade com os filhos”, afirma.
A frase desloca o lazer do lugar de recompensa para o de direito. E devolve à pergunta inicial uma resposta menos confortável: talvez o problema não seja encontrar tempo para se divertir. Talvez seja reconhecer que esse tempo deveria existir.
Fotos: Carol Rehem
