Luiz Claudio Cajaiba destaca potência do teatro moçambicano

Professor e diretor da Escola de Teatro da UFBA analisa os encontros entre Brasil e Moçambique, reflete sobre recepção teatral durante o FITI.

O teatro como espaço de encontro, escuta e construção coletiva de sentidos esteve no centro da participação do professor Luiz Claudio Cajaiba na 22ª edição do Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI), realizada neste mês em Maputo, capital de Moçambique. Diretor e professor titular da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o pesquisador integrou a programação do evento com a palestra Teorias da Recepção do Teatro, apresentada na Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane.

Reconhecido por sua trajetória acadêmica voltada aos estudos da recepção teatral, Cajaiba compartilhou com estudantes, artistas e pesquisadores moçambicanos reflexões desenvolvidas ao longo de mais de duas décadas de pesquisa. A atividade reuniu dezenas de participantes e provocou debates sobre a forma como o público constrói sentidos diante da experiência artística, deslocando o olhar tradicional que compreende a recepção apenas como um processo passivo de assimilação.

Durante sua passagem por Moçambique, o professor também acompanhou espetáculos, visitou espaços culturais e dialogou com agentes da cena local. Na entrevista concedida ao Portal Diáspora, ele analisa as aproximações e diferenças entre os contextos teatrais da Bahia e de Moçambique, destaca a força das iniciativas culturais desenvolvidas sem apoio estatal e defende o fortalecimento das trocas entre instituições dos dois países. 

Confira a seguir a entrevista exclusiva realizada diretamente de Maputo.

Como tem sido compartilhar reflexões sobre recepção teatral com estudantes, artistas e pesquisadores moçambicanos durante esta passagem por Maputo?

Realizamos um encontro com cerca de 40 a 50 estudantes da Escola de Comunicação e Artes, em Maputo. Apresentei um pouco das ideias que venho desenvolvendo ao longo dos últimos 20 anos, desde que passei a me dedicar aos estudos sobre recepção teatral. Em uma síntese de aproximadamente uma hora e meia, compartilhei conceitos e reflexões que têm orientado minhas pesquisas. Foi muito estimulante perceber a forma como as pessoas acolheram o tema e se sentiram provocadas por ele. A recepção teatral costuma ser vista como um mecanismo de transmissão de conhecimento ou de uma determinada estética artística. O que procurei mostrar foi que a obra de arte só se consolida plenamente a partir da recepção, do vocabulário, das experiências e das interpretações de quem a encontra.

Essa perspectiva despertou grande interesse entre os participantes. Depois da palestra, fui procurado por professoras e professores interessados em aprofundar o debate. A expectativa é que essa provocação inicial possa gerar uma via de mão dupla, permitindo trocas permanentes entre pesquisadores brasileiros e moçambicanos. Além da palestra, também estive em Maputo como espectador. Acompanhei o trabalho da atriz Manuela Rodrigues em seu monólogo Antes Feliz do que Mal Acompanhada e pude observar aspectos importantes da recepção teatral na cidade, algo que também tem enriquecido minha experiência nesta passagem por Moçambique.

Existem aproximações entre a maneira como o teatro é recebido na Bahia e em Moçambique?

Existem aproximações, mas também particularidades muito evidentes. Essas diferenças acontecem até mesmo dentro da própria Bahia. Salvador possui uma longa tradição de ensino teatral. A Escola de Teatro da UFBA, por exemplo, completa 70 anos de existência. Antes mesmo da criação da escola, já existia uma produção teatral madura na cidade. Em Moçambique, os cursos universitários de teatro são mais recentes, embora haja iniciativas artísticas importantes que antecedem a institucionalização desse ensino. O que mais me chamou atenção foi a relação entre produção artística e condições de realização.

Ao contrário do Brasil, onde existem mecanismos de financiamento e políticas de incentivo, ainda que insuficientes, o teatro em Maputo se desenvolve praticamente sem subvenção pública. É admirável perceber como artistas e grupos mantêm seus projetos por iniciativa própria, fundam espaços culturais e seguem produzindo. Visitei o Teatro Gungo, um dos maiores espaços culturais da cidade, construído e mantido por esforço próprio. Também conheci iniciativas como o Espaço Sabura, conduzido pela atriz e produtora Manuela Rodrigues. Essas experiências demonstram uma vitalidade muito grande.

Nos espetáculos que acompanhei durante o FITI encontrei uma cena marcada pela presença da juventude, pela disposição para experimentar e pela vontade de construir caminhos. Essa energia aparece de forma muito forte na recepção do público e na própria produção artística.

Que aprendizados esse encontro entre Brasil e Moçambique pode trazer para o fortalecimento do teatro e da formação artística?

A experiência do FITI é extremamente importante porque reúne diferentes países de língua portuguesa e amplia as possibilidades de diálogo. Além dos grupos lusófonos, também tivemos a participação de artistas sul-africanos. Isso fortalece a compreensão de que o teatro se constrói no encontro entre diferentes experiências.

Assistir aos espetáculos foi uma oportunidade de perceber como podemos aprender uns com os outros. A apreciação da cena é fundamental para esse processo. Muitas vezes, é observando o trabalho do outro que conseguimos refletir sobre nossos próprios caminhos.

Durante a palestra, surgiu o relato de um professor que havia assistido, anos atrás, a um espetáculo brasileiro em Portugal e sentiu falta de uma identidade mais evidente naquela produção. Hoje, a situação é bastante diferente. Tanto no Brasil quanto em Moçambique observamos movimentos que buscam afirmar identidades culturais próprias. Na Escola de Teatro da UFBA, por exemplo, houve uma mudança importante nos últimos anos, com o fortalecimento de poéticas afro-referenciadas e a ampliação da presença de professores e professoras negras. Isso tem transformado profundamente a produção artística e a formação acadêmica.

Nossa expectativa é que essas trocas não se encerrem com o festival. O mais importante é que elas gerem parcerias permanentes, intercâmbios acadêmicos e circulação de estudantes, professores e pesquisadores entre a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Eduardo Mondlane.

Além da palestra, o que mais tem chamado a sua atenção na cena cultural moçambicana e de que forma essa vivência pode dialogar com o seu trabalho como professor e pesquisador na Bahia?

O que mais me impressionou foi a enorme capacidade de realizar arte mesmo diante da ausência de financiamento público. Conheci espaços culturais estruturados, iniciativas comunitárias e grupos que seguem produzindo graças ao esforço coletivo de artistas e gestores culturais. A visita ao Teatro Gungo foi particularmente marcante. Trata-se de um espaço com grande capacidade de público e estrutura técnica significativa, mantido essencialmente por iniciativa privada. Isso demonstra um nível de comprometimento admirável.

Também me chamou atenção a longevidade do próprio FITI. O festival é coordenado há mais de duas décadas pelo professor Joaquim Matavele, que se dedica continuamente à construção desse importante espaço de intercâmbio cultural. Manter um evento dessa dimensão durante tantos anos revela uma enorme persistência. Outro aspecto relevante foi a visita ao Centro de Teatro do Oprimido. Fiquei impressionado com a dimensão do trabalho realizado e com o impacto social produzido pelas atividades desenvolvidas. Trata-se de uma experiência que utiliza a arte como instrumento de transformação e participação cidadã.

O que testemunhei em Moçambique foi uma cena teatral viva, pulsante e profundamente comprometida com seu público. A recepção teatral, mesmo em contextos de adversidade, revela uma força extraordinária. Há uma disposição coletiva para produzir, compartilhar e sustentar a arte, e isso é algo muito inspirador para qualquer pesquisador ou professor de teatro.

Fotos: divulgação

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Criado por Jadson Nascimento

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