Artista reflete sobre a presença de músicos negros na cena baiana e a responsabilidade de transmitir às novas gerações uma história construída por seus antecessores.
A música também é uma forma de preservar a memória. No palco do AFROPUNK Brasil, Lazzo Matumbi transformou sua apresentação em um encontro entre diferentes tempos da música negra baiana. Com interpretações marcadas pela emoção, o cantor revisitou canções que carregam afetos, experiências e posicionamentos políticos. Entre os momentos de maior intensidade estiveram “Me Abraça e Me Beija” e “14 de Maio”, composição que se tornou uma referência na discussão sobre a resistência da população negra brasileira.
Uma das primeiras atrações a se apresentar na sexta edição do festival, Lazzo levou ao público uma trajetória que atravessa décadas da música produzida na Bahia. Em 2025, o artista havia dividido o palco com Tatau e Márcia Short em uma homenagem aos 40 anos da Axé Music. Desta vez, retornou ao AFROPUNK em apresentação solo, reafirmando sua presença em um cenário musical que também ajudou a construir.
Em entrevista ao Portal Diáspora, o cantor foi questionado sobre o espaço que artistas negros responsáveis pela formação da identidade musical baiana ocupam atualmente e sobre o reconhecimento dessa contribuição. Sua avaliação é de que existe um movimento de avanço, embora ainda distante do lugar que esses profissionais merecem.

Para Lazzo, o reconhecimento também passa pela possibilidade de reescrever uma história que, durante muito tempo, não recebeu a devida atenção. O trabalho dos artistas que abriram caminhos precisa ser transmitido a quem está começando, criando referências para outras gerações. É uma responsabilidade que ele associa diretamente à ancestralidade.
“Eu acho que a gente está reconstruindo, reescrevendo uma história que vai servir para os novos que estão chegando e para os mais novos que virão. Nossa obrigação, através do ensinamento da nossa ancestralidade, é continuar capinando e preparando o terreno para quem está chegando”, disse.
Essa relação entre passado, presente e futuro também atravessa o repertório apresentado no festival. Em “14 de Maio”, composição de Lazzo Matumbi com o poeta Jorge Portugal, a memória da população negra no período pós-abolição ganha forma musical. O título faz referência ao dia seguinte à assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, quando a liberdade formal não veio acompanhada de políticas de inclusão, reparação ou garantia de condições dignas de vida para a população negra.

A canção aborda o abandono, a falta de oportunidades e as desigualdades que marcaram esse período e cujos efeitos permanecem na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, afirma a resistência e a identidade de um povo que continuou construindo seus próprios caminhos. A música transforma uma data pouco lembrada nas narrativas oficiais em um ponto de partida para discutir as consequências históricas da escravidão.
Já “Me Abraça e Me Beija” trouxe outra dimensão à apresentação, com uma atmosfera de afeto e proximidade. Entre a denúncia e o carinho, o repertório de Lazzo evidencia como diferentes sentimentos e experiências também compõem a expressão da música negra.
Ao falar sobre sua própria trajetória, o cantor não se coloca como alguém que chegou a um destino definitivo. Prefere reconhecer o caminho percorrido e a responsabilidade de mantê-lo aberto. Para ele, o valor de continuar na música está também em contribuir para que outros artistas encontrem condições de construir suas próprias histórias.
“Eu me sinto gratificado porque isso é uma missão ancestral. Se eu estou servindo à minha ancestralidade, estou bem pra caralho”, declarou.
No AFROPUNK, essa compreensão ganhou corpo em uma apresentação que reuniu música, memória e emoção. A presença de Lazzo no festival também lembrou que a história da música baiana não pode ser contada sem aqueles que ajudaram a construí-la.
