Cantora fala sobre ancestralidade, samba, religiosidade de matriz africana e os 25 anos de trajetória que inspiraram seu mais recente projeto audiovisual.
Celebrar uma trajetória artística também pode ser uma forma de preservar memórias, reafirmar identidades e registrar histórias que atravessam gerações. É com esse propósito que a cantora, compositora e sambista paulistana Grazzi Brasil apresenta “Na Gira”, projeto audiovisual lançado recentemente que marca seus 25 anos de carreira e reúne música, ancestralidade e referências às religiões de matriz africana.
Concebido como um álbum e DVD, o trabalho organiza seu repertório a partir da simbologia das giras de Umbanda, dividindo as canções entre as linhas da direita e da esquerda. A proposta dialoga com a trajetória da artista, construída entre os terreiros, o samba e o Carnaval, e transforma sua experiência pessoal em narrativa musical.
Ao longo da carreira, Grazzi consolidou seu nome no samba ao romper barreiras históricas no Carnaval, tornando-se a primeira mulher negra a atuar simultaneamente como intérprete de escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro. Também passou por programas de televisão, integrou produções musicais e levou o samba brasileiro a palcos internacionais.
Além do registro audiovisual, “Na Gira” inclui ações voltadas à democratização do acesso à cultura, com apresentações gratuitas e atividades formativas. O projeto também reforça o papel do samba e das manifestações de matriz africana como patrimônios culturais e espaços de construção de memória, pertencimento e resistência.
Nesta entrevista ao Portal Diáspora, Grazzi Brasil fala sobre os bastidores de “Na Gira”, a relação entre sua trajetória artística e a espiritualidade, os desafios enfrentados ao longo da carreira e a importância de registrar, por meio da música, histórias que ajudam a compreender a força do samba e da cultura afro-brasileira.
Depois de 25 anos de carreira, por que ‘Na Gira’ era o projeto que precisava ser realizado agora? O que ele representa na sua trajetória como artista e como mulher negra?
Eu acho que depois de 25 anos de carreira, eu acho que eu devo tudo à minha espiritualidade, eu acho que tinha que ser agora, tanto é que nós escrevemos e deu tudo certo para que isso acontecesse. Eu acredito que eu não seria ninguém se eu não tivesse andado pelas trilhas desse caminho espiritual, se eu não entendesse tantas coisas, eu acho que veio de um jeito muito especial e era para ser agora, assim como eu acredito que nada é por acaso, “Na Gira” tinha que vir nesses 25 anos, que quando a gente fala de numerologia, o 25, 5 mais 2 é 7, 7 é totalmente espiritualidade, então eu acho que tinha que vir nesse momento, sabe, com toda a minha gratidão, com toda a minha trajetória. Tudo que eu vinha escrevendo aos pouquinhos. Então, eu devo muito à minha espiritualidade. Acho que, de fato, tinha que ser agora. E eu sou muito feliz por isso. E o “Na Gira”, tem muita verdade, né? Então, traz muita gratidão a tudo que eu vivi até agora. Por isso que eu acho que foi um grande momento. E que bom que esse momento chegou.

Você transforma elementos da Umbanda e das religiões de matriz africana em protagonistas deste audiovisual. O que espera que o público compreenda ou ressignifique ao assistir e ouvir ‘Na Gira’?
Eu quero que as pessoas entendam que a verdade, a fé, ela existe e que move tudo. Assim como eu tive uma fé para um dia gravar esse audiovisual, quando lá atrás eu fiz esse show, eu tive esse pensamento de fazer esse show e pensei que um dia isso iria virar um audiovisual. Então acho que a fé é o que move e o respeito, eu acho que eu quero que as pessoas entendam isso, que a fé é o ponto alto da vida e que todas as coisas podem de fato acontecer mesmo.
Você costuma dizer que veio do samba, mas também veio do terreiro. Em que momento da sua vida essas duas histórias deixaram de caminhar separadas e passaram a ser uma só?
Eu acho que o samba e o terreiro nunca caminharam separados. Eu acho que eles sempre estiveram juntos, né? Eu canto desde os 13 e com os 22 anos eu entro de fato para o samba e automaticamente para a religião. Então, a partir do momento que é uma música preta, não tem como não ter a ancestralidade, não tem como não ter o que a gente carrega lá de trás.
Essas duas coisas andam juntas, eu acho que é uma só. Acho que a macumba, o samba, elas andam juntas. Então, acho que não tem essa divisão. Tem uma história que é do meu povo. Eu tenho muito orgulho de contar essa história com muito cuidado, com muito respeito, com muita cautela e com muito amor, assim. Então, acho que essas coisas andam de fato juntas, acho que elas não se separão. Elas são!

O projeto é dividido entre o “Povo da Direita” e o “Povo da Esquerda”. Por que você escolheu essa estrutura e o que ela revela sobre a proposta do álbum?
Então, quando a gente conversou sobre duas partes, eu já pensei logo na roupa, né? Primeira roupa é em dourado, que vem falando da minha mãe Oxum, e a gente vem cantando tudo para a gira, então existe gira de direita, que a gente vai falar de caboclo, a gente vai falar de baiana, a gente vai falar de Erê, vai falar de marujada, enfim, boiadeiro. E na gira de esquerda a gente vem falando de Exu, Pombagira. E aí eu, primeiro, essas duas partes para dar um gostinho de quero mais, né, e também dividindo desse jeito, porque numa gira existe a gira de direita e existe a gira de esquerda. Então, eu que dividir esse álbum assim, eu acho que tem muito a ver, eu acho que me identifico e tem o lance de dar um gostinho a mais. Mas também tem fundamento de ser uma gira de direita ou uma de esquerda, mas depois esse algo se junta e vira um algo só. Porque eu espero, sinceramente, que as pessoas gostem e sintam essa energia assim como eu senti.
Você se tornou a primeira mulher negra a ocupar espaços historicamente masculinos no carnaval, como intérprete de escolas de samba em São Paulo e no Rio ao mesmo tempo. Quando você olha para essa trajetória, sente que abriu caminhos para outras mulheres?
Eu sou a primeira mulher, depois de 20 anos, eu me torno a primeira mulher na maior escola de São Paulo, que é a Vai Vai. Não sou a primeira mulher negra, existiram outras antes de mim, como Elza Soares, como Dona Bernadette, teve outras mulheres, então, assim, eu sou muito grata, tudo que elas vieram trilhando, e esses dez anos que eu tenho de carnaval, sendo mulher aqui no Rio e São Paulo, de 2018 e 2019, eu era realmente a única mulher em São Paulo e no Rio, mas tiveram outras mulheres anos atrás. Hoje eu acho que mais mulheres estão aparecendo, assim, espero, espero que dê tudo certo, que a gente saiba que não é fácil, acho que em qualquer setor desta vida para a mulher não é fácil. Mas quando eu olho minha trajetória eu fico muito feliz porque em 25 anos muitas coisas aconteceram e eu sou tão grata e isso enriqueceu o meu currículo, minha vida, minha história, meus pensamentos, então tiveram outras mulheres antes de mim e negras também. Dentro do Vai Vai eu sou a primeira mulher e no Tuiuti também, enfim, mas sou grata a todas essas mulheres que vieram trilhando esse caminho para que eu chegasse e acredito que estão chegando e terão muito mais mulheres aí.


Se uma jovem menina negra da periferia, que canta na igreja, no terreiro ou na quadra de uma escola de samba, assistir a ‘Na Gira’, qual é a principal mensagem que você gostaria que ela levasse desse encontro?
Eu acho que a principal mensagem que eu quero passar dentro desse meu trabalho para essas mulheres, para essas meninas que estão chegando, é que é possível. É possível porque eu vim da favela, eu vim de um lugar onde ninguém dentro da minha família acreditou, porque a realidade era realmente outra e eu fui mãe aos 16 anos. Hoje aos 38, eu sou avó de dois e mesmo com tudo isso, sendo mãe solo, tendo mais um filho de 13, hoje minha filha vai fazer 23 anos, então eu sempre falo que o pior já passou. Eu acredito que quando alguém olhar para esse trabalho, possa entender que sim é possível, porque as coisas realmente acontecem e quando a gente quer muito é porque está no caminho da gente. Então não tem como seguir outro caminho. É uma vontade tão grande, tão forte, que por mais que aconteçam coisas que pareçam que não vai dar certo, elas vão, porque se um dia eu sonhei em ser cantora, hoje eu sou, um dia eu sonhei que o “Na Gira, que era só um show, seria um audiovisual, e hoje está acontecendo. Eu espero que elas se apeguem nos sonhos e que eles se tornem realidade. Porque é possível, sim. A gente tem histórias para dizer que não, mas tudo que tá na nossa cabeça, tá no nosso caminho. Então, o que eu desejo é achar confiança e ir para cima, só isso.
Repertório Completo:
Parte 1 – Povo da Direita
1. Renovei Minha Fé (Thiago de Xangô e Maurício Rocha Jr.)
2. Opará feat. Mayara Costa (Grazzi Brasil e Mayara Costa)
3. Benção de Orixá (Grazzi Brasil)
4. Marujo Mario (Grazzi Brasil e Thiago de Xangô)
5. Vovó Maria (Deny Alves, Marquinhos Jaca, Reinaldinho e Vagner Almeida)
6. A Baiana Deu Sinal (Domínio Público)
7. Festa no Ilê (Abel Luiz e Raul Di Caprio)
8. Por um Doce (Edu Batata)
9. Licor de Jurema (Jéssica Américo)
10. O Meu Canto Mata Um (Robson Batuta)
Parte 2 – Povo da Esquerda
11. Mulambo (Ed Trombone)
12. Ela é de Oyá feat. Sandro Luiz (Sandro Luiz)
13. Na Gira do Mundo (Kayan Alcântara e Grazzi Brasil)
14. Não Tenha Medo do Seu Marido (Domínio Público)
15. Santo Antônio Pequenino / Exú Mirim (Domínio Público)
16. Doi Dói / Arreda Homem / Pombagira Cigana da Estrada / Malandrinha do Cais / Barraca Velha (Domínio Público)
17. Alafiou (João Martins e Luciano Bom Cabelo)
Ficha Técnica:
1-Renovei minha fé
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Flugelhorn: Ed trombone
2-Opara – Grazzi Brasil e Mayara Costa (3:07)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Trombone: Ed trombone
3-Benção de Orixá (3:45)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Flugelhorn: Ed trombone
4-Marujo Mario (3:31)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Flugelhorn: Ed trombone
5-Vovó Maria (5:14)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Flugelhorn: Ed trombone
6-A baiana deu sinal (2:04)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
7-Festa no Ilê (3:54)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Trombone: Ed trombone
8-Por um doce (3:27)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
9-O meu canto mata um (3:38)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Berimbau: Ed trombone
10-Licor de Jurema (2:48)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
11- Mulambo (Ed Trombone)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
12- Ela é de Oyá – Grazzi Brasil e Sandro Luiz (3:17)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
13-Na Gira do mundo (2:58)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Trombone: Ed trombone
14-Não tenha medo do seu marido (1:51)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
15-Santo Antônio pequenino – Exú mirim (3:31)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
16- Doi dói /Arreda homem/Pomba Gira/ Cigana da estrada/ Malandrinha do cais/ Barraca velha (6:46)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Flugelhorn: Ed trombone
17- Alafiou (2:56)
Arranjo: Leàndro Máttos
Cavaquinho: Emerson Bernardes
Violão 7 cordas: Rodrigo Carneiro
Percussões: Gerson Martins Dias, Douglas Miguel (Pit), Kayan Alcantara e Ed Trombone
Trombone: Ed trombone
Confira algumas imagens do audivisual “Na Gira”













Fotos: Lecco Pires e Felipe Araújo
