Feita em Nampula, aberta ao Mundo

Elena Brugioni sobre o novo livro de Jessemusse Cacinda 

No seu texto, Brugioni destacou a música como “a principal e mais original qualidade estética e narrativa da obra”. Escreveu ainda que Cacinda apresenta-nos “uma escrita intensa, plural e polifônica, feita em Nampula e aberta ao Mundo, onde muitas vozes se fazem ouvir, sem cacofonia nem palavras de ordem, e neste conjunto diverso e denso tudo o que está dito e escrito parece fazer muito sentido”.

Elena Brugioni, Professora Associada, Livre-Docente em Literaturas Comparadas, Literaturas Africanas e Teoria Pós-colonial na Universidade Estadual de Campinas UNICAMP e Membro da Diretoria da Associação Brasileira de Estudos Africanos ABE-África escreveu sobre o livro “Made in Nampula ou Jazz do Oriente” (Minas Gerais, Nandyala, 2016) da autoria do escritor moçambicano Jessemusse Cacinda. 

A seguir, o texto na íntegra: 

Correndo o risco de ser desmentida por algum guardião do cânone literário, me atrevo a afirmar que a Literatura Moçambicana vive, já desde alguns anos, uma de suas fases mais interessantes e Made in Nampula ou Jazz do Oriente é, sem sombra de dúvida, a prova disso. Em linha com as palavras de Tania Macêdo, que assina o Posfácio à edição brasileira (Nandyala, 2026), é importante reconhecer desde logo que estamos diante de um livro a ler com cuidado e atenção, uma obra sólida e de qualidade indiscutível. E é sobretudo nas dimensões de densidade e variação que se encontra, a meu ver, a principal qualidade deste Made in Nampula e, portanto, a primeira razão pela qual cuidado e atenção se fazem necessários. 

Os oito contos que compõem o livro podem ser lidos tanto pela ordem do sumário, tanto salpicando entre um e outro; cada um funciona perfeitamente sozinho, mas todos juntos se tornam outra história, ou melhor, outro repertório pois afinal é na música que podemos encontrar a marca da originalidade estética do livro, como o subtítulo faz questão de afirmar abertamente. 

A música, que perpassa – de diferentes formas – cada conto e o livro como um todo, não se esgota apenas nas referências explícitas, inclusive a autores e gêneros musicais célebres e consolidados, mas se apresenta, a meu ver, como a principal e mais original qualidade estética e narrativa desta obra. Aliás, ao ler Made in Nampula ou Jazz do Oriente de uma só vez, do princípio ao fim, é quase impossível não pensar numa jam session, termo que define algumas das mais extraordinárias contribuições da história do Jazz, desde seus primórdios, e que pode ser definida como uma conversa musical, feita de perguntas e respostas, citações, trocadilhos e gírias em torno de uma variação de temas, sem um roteiro previamente estabelecido mas, não por isso, desprovida de regras, convenções e técnicas. Entre os muitos parâmetros que medem a qualidade de uma jam session, variação e densidade se destacam entre os principais critérios a serem observados. Neste sentido, a jam session que Jessemusse Cacinda nos apresenta neste seu Made in Nampula ou Jazz do Oriente pode ser observada a partir do equilíbrio entre variação e densidade que cada um dos contos, e todos eles juntos, são capazes de criar e entregar. São muitas as “conversas musicais” que surgem em cada conto e que se desdobram com densidade em torno de uma variação de temas e repertórios, sem perseguir roteiros previamente estabelecidos, e assim fazendo contornam com elegância e habilidade cliches literários e virtuosismos técnicos, oferecendo ao leitor uma obra que, tal como as melhores jams, surpreende, espanta e nos leva longe. Mas não se enganem, tal como no jamming do Jazz, improviso não significa impensado, e nos contos de Cacinda a espontaneidade destas conversas é desdobrada com magistral fluência narrativa através de uma gramática estética habilmente concebida, evidenciando intuições de grande originalidade que nunca acabam em lugar-comum. É a lucidez do narrador – tal como a do músico – que é capaz de transformar a intuição em pensamento, a improvisação em sentido e não faltam no livro passagens e intuições valiosas, isto é,  pequenas jóias literárias. Como por exemplo o conto que dá o título ao livro, Made in Nampula ou Jazz do Oriente, onde um narrador que sonha “em subir aos grandes palcos deste mundo” e ensaia versos “curtos demais para serem musicados” ao concluir que sua “arte não é nada de grandioso” entrega para o leitor um conto que me atrevo a definir quase perfeito, onde diversos tons, temas e repertórios literários coexistem e se adensam – “cada passo uma história, cada gesto uma canção” – num enredo que ao integrar os gêneros da auto-ficção, da escrita da memória e do mise em abyme apresenta um prosa que “domina a língua/ ao ponto de a reinventar/ para usos nunca antes sonhados”. 

Como apontam as possíveis e múltiplas, embora nem sempre comprovadas, etimologias da palavra jam, esse livro de Jessemussse Cacinda é uma obra intensa e doce, como a colherada de geleia que estaria na origem da expressão jam session nos primórdios do Jazz americano no final dos anos ’20. Mas é também uma obra múltipla, plural e coletiva – pensando agora numa possível relação entre o jam em inglês, o jamaa em swahili e o jama em wolof que se apresentam como pistas etimológicas e indícios das matrizes culturais africanas que estariam na origem da musica Jazz e do termo jam session. Trata-se em suma de uma escrita intensa, plural e polifônica, feita em Nampula e aberta ao Mundo, onde muitas vozes se fazem ouvir, sem cacofonia nem palavras de ordem, e neste conjunto diverso e denso tudo o que está dito e escrito parece fazer muito sentido. 

São Paulo, Setembro 2026

Foto: divulgação

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Criado por Jadson Nascimento

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