À frente de ELOS III, produtor fala sobre criação coletiva, pesquisa musical, mercado, novas gerações e a necessidade de aproximar artistas para além dos números
No estúdio de Devasto Prod, uma sessão de gravação pode começar muito antes de alguém apertar o botão de rec. Às vezes, começa numa conversa. Em uma referência musical descoberta no YouTube. Em uma pergunta sobre um artista que um dos músicos ainda não conhece. Ou na ideia aparentemente improvável de colocar duas pessoas que nunca trabalharam juntas diante do mesmo beat.
É desse tipo de encontro que nasceu ELOS, projeto que chega ao terceiro volume com seis faixas e participações de nomes como Leozinho ZS, MC Kadu, Rincon Sapiência, MC Davi, J9, Iza Sabino, Marvvila, Junior Lord, Aaron Modesto e o angolano Cunamata. O lançamento reúne funk, rap, trap, R&B e outras sonoridades sem tentar fazer das diferenças uma questão a ser resolvida. Para Devasto, elas são justamente o ponto de partida.
A ideia de ELOS, no entanto, não começou como uma trilogia. O projeto foi pensado inicialmente como um álbum, ainda em 2023. Antes de decidir como ele seria lançado, Devasto passou a observar o próprio trabalho e se fez uma pergunta que acabou mudando o caminho da obra: o que, afinal, ele estava criando quando produzia uma música? A resposta não estava somente nos beats.

“Eu entendi que eu crio elos entre pessoas por causa sempre daquela perguntinha: e se tal artista com tal artista? Eu não digo só da questão de feat. Eu digo de se conhecer, de se conectar, de trocar uma ideia”, conta.
A palavra acabou encontrando também uma prática que já existia no cotidiano do produtor. Em suas sessões, Devasto procura retirar da gravação a obrigação de que dois artistas simplesmente entrem no estúdio, façam suas partes e saiam com uma colaboração pronta. O processo, para ele, precisa permitir que as pessoas se encontrem antes da música.
“Eu não gosto de ter aquele peso de ‘a gente tem que gravar o feat’. Não. Vamos se conhecer, vamos conversar, vamos rir, vamos pesquisar músicas juntos. Deixa eu conhecer qual é a sua referência, o que você escuta. Aí você escuta um pouco do meu e, quando a gente percebe, já está fazendo a música. Ter essa liberdade de incluir naturalmente as coisas. O Elos foi muito baseado nisso.”
A prática também revela uma preocupação que atravessa sua trajetória. Para Devasto, colocar artistas de diferentes momentos da carreira em uma mesma sala pode criar uma espécie de circulação de conhecimento que nem sempre acontece naturalmente na indústria. Foi assim que surgiram encontros que, em alguns casos, ultrapassaram a própria música.
Antes de ELOS se transformar em uma série de lançamentos, o produtor já reunia artistas em seu estúdio. Pessoas que estavam começando dividiam espaço com nomes consolidados e músicos que carregavam décadas de experiência. A intenção não era produzir imediatamente. Era conversar.

“Às vezes você tem um artista que deslanchou e consegue puxar o outro que está chegando. O ELOS começou num momento em que eu fazia encontros particulares do Devasto. Trazia artistas que estavam começando, artistas que já estavam batendo alguns números e artistas que estavam na cena há muito tempo. Reunia no meu estúdio, tirava meio que o celular da mão de todo mundo e falava: ‘vamos conectar, vamos conversar’.”
A experiência tinha ainda outra camada. Devasto percebeu que parte da dificuldade de uma geração pode estar justamente na ausência de referências próximas.
“Porque a gente, por ser povo preto, não tem muito essa referência. A gente não cresceu vendo o Superman preto. Então, agora que o nosso povo está tendo mais acessibilidade, conseguindo fazer dinheiro, a gente também não tem referência de como é ser preto rico.”
A questão, para ele, não se resume à representação simbólica. Trata-se de poder perguntar a alguém que atravessou determinadas experiências como foi chegar até ali. De aprender com quem veio antes e, ao mesmo tempo, permitir que quem está chegando apresente outras possibilidades.
Foi desse ambiente que saiu a primeira movimentação de ELOS. Em uma dessas reuniões, Devasto colocou no mesmo espaço artistas de diferentes gerações. Entre eles estavam nomes como Mano Brown, Hariel, MC Magal e outros artistas da cena. Naquele momento, o projeto ainda não tinha a forma que teria depois, mas a ideia já estava presente: aproximar pessoas que, apesar de pertencerem ao mesmo universo cultural, muitas vezes permaneciam separadas pelas distâncias criadas pela própria indústria.
A música viria depois.
Em ELOS III, esse princípio aparece em cada uma das conexões. A parceria entre Rincon Sapiência e MC Davi, por exemplo, surgiu enquanto Devasto trabalhava com Rincon em uma música sobre as consequências da vida, pensada a partir da imagem das curvas de um relacionamento. Durante a criação, o produtor imaginou outro artista naquele espaço.
“Eu parei e olhei para ele e falei: ‘isso tem muito a ver com o MC Davi’. Eu gostaria de ver o MC Davi nessa faixa com você. Ele falou que seria muito louco. Aí comecei a correr atrás do contato do Davi. Mostrei a música, ele amou e foi instantâneo. Já marcou, fui lá gravar o Davi.”
O encontro ainda produziu uma nova camada na própria composição. Ao ouvir a parte de Rincon, MC Davi incorporou elementos da métrica do outro artista à sua interpretação. O mesmo aconteceu com J9 e MC Kadu. Devasto começou a trabalhar com J9 e, durante a sessão, percebeu que aquela música poderia ganhar outra dimensão com a presença de Kadu. O convite aconteceu sem planejamento prévio. Kadu gravou sua parte sem que J9 soubesse exatamente o que estava sendo preparado. Quando ouviu o resultado, a surpresa virou parte da experiência.
“Eu não vou por base de ‘se o cara é famoso, se o cara não é, se ele tem views, se ele não tem views’. Não. É o que tem a ver com o sentimento, a energia daquilo.”
Essa lógica ajuda a explicar uma das principais posições de Devasto sobre o atual mercado musical. Em uma indústria cada vez mais orientada por métricas, tendências e algoritmos, ele desconfia das colaborações construídas apenas pela capacidade de dois nomes somarem números.
“Eu acho que é importante o mercado crescer da forma que vem crescendo, digitalmente, com ferramentas e tudo. Mas acho que a gente também está esquecendo de botar o pé no chão. Se conectar de verdade, fazer mais questão de estar junto. Não é um lance de ‘vamos fazer uma música falando disso porque vai bater’. Eu, particularmente, não sei fazer assim. É tudo sobre a energia, o sentimento.”
A crítica, porém, não significa uma rejeição ao crescimento do mercado. Devasto faz questão de diferenciar as duas coisas. Para ele, a expansão da música negra brasileira também foi resultado da existência de diferentes estilos, públicos e formas de criação.
“Eu não sou um cara que gosta de pré-julgar as coisas. Eu sou de uma geração em que o mercado ainda era um nicho muito pequeno, onde não tinha dinheiro, a indústria era outra. Desde lá eu sempre briguei para existirem vários estilos, de várias camadas. Eu não preciso gostar, tem que existir. Até aquilo que não agrada ao meu ouvido pode ser agradável para outra pessoa.”
O que lhe preocupa é outra coisa. A velocidade do mercado pode fazer com que algumas músicas desapareçam tão rapidamente quanto surgiram. Para Devasto, a produção musical corre o risco de perder parte da pesquisa e da permanência que marcaram outras gerações.

“Eu sinto falta de músicas imortais, músicas que atravessaram décadas e gerações. A internet, esse polo novo, está afastando um pouco isso. Se você comparar algumas músicas de algumas gerações para cá, não são muitas que atravessaram as últimas gerações. Teve muita gente que fez um trabalho bonito em algumas épocas e depois sumiu.”
Por isso, ele fala de pesquisa como quem fala de uma ferramenta de criação. Não necessariamente uma pesquisa acadêmica, mas a disposição de descobrir de onde vêm os sons, as ideias e as pessoas que formaram determinada linguagem. Em uma sessão, isso pode significar interromper a produção para procurar referências antigas. Ele cita Donna Summer como exemplo de uma artista que pode abrir caminhos para alguém interessado em compreender a música que faz hoje.
“Eu, por ser mais velho, me sinto na obrigação de trazer bastante dessas experiências para a rapaziada nova. Então, ao invés de só chegar e pular direto no trap, eu falo: ‘não, vamos nos conectar com isso aqui. Vamos entender quem veio antes’. Você conhece quem puxou o bonde disso? Até para você defender o movimento, para apresentar a verdade naquilo que você está falando, que você está cantando, você precisa ter conhecimento sobre toda a história.”
A pesquisa, nesse caso, não serve para limitar a criação a uma tradição. Serve para ampliar o repertório de quem cria.
Essa abertura também aparece na relação de Devasto com a geração que veio depois dele. Com mais de duas décadas de trajetória, ele poderia ocupar o lugar do artista veterano que observa as mudanças do mercado à distância. Prefere fazer o contrário.
Ele lembra de uma conversa com Mano Brown que, segundo ele, ajudou a formular essa postura.
“Eu não posso me transformar em um produto obsoleto. Eu faço rap, faço música preta. Eu quero, eu preciso que isso chegue até as pessoas. Então eu tenho que evoluir conforme tudo. Eu preciso me conectar com esse moleque novo. Se hoje é outra gira, outras ondas sonoras, minha experiência e o que eu tenho para dizer também precisam chegar nele. Então eu vou ter que falar a língua dele. Vou ter que aprender a linguagem dele para me conectar com ele.”
Há, nesse pensamento, uma espécie de inversão da ideia de experiência como autoridade. Devasto não acredita que ter mais tempo de carreira dê a alguém o direito de fechar a porta para aquilo que ainda não conhece. Ele próprio reconhece que certas mudanças não lhe fazem sentido imediatamente. E considera isso parte natural da convivência entre gerações.


“Quando a gente chegou, a gente era o novo e os outros de antes também não entendiam. A gente se incomodava porque eles não queriam se conectar com a gente. Então como é que agora eles não fazem questão de se conectar com quem está chegando? Não pode. Não faz sentido.”
O aprendizado, portanto, precisa acontecer nos dois sentidos. A geração mais velha oferece repertório e memória, mas também precisa aceitar que não possui todas as respostas.
No terceiro volume de ELOS, essa disposição aparece inclusive na presença de Cunamata, artista angolano. A participação acrescenta ao projeto uma conexão que ultrapassa as fronteiras do Brasil e coloca em contato experiências negras construídas em contextos diferentes.
A presença de Cunamata em ELOS III, portanto, não é tratada pelo produtor como uma simples participação internacional. Ela faz parte de uma compreensão maior sobre as diferenças e aproximações existentes dentro da própria diáspora.
A palavra “conexão” volta a aparecer quando Devasto fala de autoria. Para ele, a ideia de que apenas quem aparece na frente do microfone é artista nunca fez sentido. O produtor reivindica para si e para os demais profissionais envolvidos na criação o direito de ocupar esse lugar.
“Eu acho que artista não é só quem está lá cantando. Artista é todo mundo que faz parte da obra. Não importa o que você fez na obra. Você é artista tanto quanto.”
Essa é uma disputa que ele carrega há anos. Devasto conta que já recusou trabalhos e dinheiro porque não aceitava ficar sem o devido reconhecimento. A própria insistência em colocar sua tag nas músicas nasceu desse enfrentamento.
“A gente constrói a Ferrari, a Lamborghini que vagabundo está desfilando. A gente ajudou a construir. Então, peraí. Tem que ter meu nome na música, sim.”
O argumento se estende ao palco. Para Devasto, a música é uma construção coletiva e a indústria precisa reconhecer essa dimensão na hora de distribuir espaços e créditos.
“Eu já vi um DJ produtor fazer festival para 40 mil pessoas, mas nunca vi um cantor cantando a capela para 40 mil pessoas num show de uma hora. Você precisa da música, precisa do instrumento, precisa do músico. É conjunto. Então por que não dividir esse palco certinho?”
A palavra coletivo, nesse ponto, deixa de ser apenas um conceito artístico e se aproxima de uma memória pessoal. Devasto fala da quebrada, das relações de vizinhança, das casas onde sempre havia alguém oferecendo café, das conversas no beco. É desse ambiente que ele diz ter aprendido uma forma de convivência que tenta levar para dentro do trabalho.
“Eu gosto daquela coisa onde é comunidade mesmo. É de onde eu vim. É eu colar ali no beco, a tia, minha vizinha me perguntar se quero um café. Eu aprendi assim. Então eu tento reproduzir esse tipo de coisa que foi minha vida na forma profissional da música.”
Talvez seja por isso que ELOS tenha se tornado uma trilogia. Não porque Devasto tenha planejado desde o início três capítulos perfeitamente organizados, mas porque cada volume registra um momento diferente do próprio processo. O primeiro corresponde a uma fase, o segundo a outra, e o terceiro nasce de novas experiências e novas escutas.
No terceiro capítulo, ele quis se aproximar de um determinado “sabor” do rap nacional, ainda que as músicas não possam ser reduzidas a um único gênero. Há o funk consciente de “Lá dos Prédios”, o trap de “Eu Quebro Regras”, a aproximação entre Rincon Sapiência e MC Davi em “Um Trago”, as ondas de “Molotov”, com Iza Sabino, o encontro entre J9 e Kadu em “Pôster no Quarto” e o encerramento com Marvvila e Junior Lord em “Sem Nada”.

Mas o que une as seis faixas não é uma sonoridade específica. É o princípio que Devasto repete desde o começo da conversa: ninguém precisa deixar de ser quem é para que uma colaboração aconteça.
No fim, é também assim que ele enxerga o próprio trabalho. Um produtor pode começar com um beat, sugerir um refrão, aproximar dois artistas ou apresentar uma referência musical. Pode gravar, dirigir, organizar, ouvir e fazer perguntas. Mas a obra cresce à medida que outras pessoas entram nela.
“Eu acho que produtor musical não só produz, ele cria elos. A gente apresenta músicos, está num papel dentro das salas de estúdio onde vai conectando muitas pessoas através daquilo. Um produtor cria muito elo.”
ELOS III é, nesse sentido, uma espécie de registro dessa maneira de trabalhar. A trilogia chega ao terceiro capítulo, mas a questão que a sustenta permanece aberta. Como aproximar pessoas em uma indústria que, embora tenha multiplicado as ferramentas de conexão, também pode tornar os encontros cada vez mais superficiais?
Devasto tem uma resposta que não passa por uma nova ferramenta, uma tendência ou uma fórmula de mercado. Passa pela disposição de sentar, ouvir e permanecer perto. “A internet finge conectar todo mundo, mas, ao mesmo tempo, está todo mundo se afastando.”
Talvez seja por isso que, para ele, uma sessão de música ainda precise começar antes da música.
Fotos: divulgação
