“A cidade que aprendeu a não ver”

Salvador costuma ser vendida como a cidade da festa, do verão, das rodas de capoeira, do samba, da alegria e da música. Essa Salvador existe, de fato, mas não existe sozinha. Ela é apenas uma das cidades que coexistem dentro da mesma capital.

Num certo dia de sol, caminhando pelo Centro, passei pela Praça da Piedade. A praça carrega uma história marcada pela violência colonial, talvez pouco conhecida por quem a atravessa diariamente sem perceber os bustos que homenageiam os líderes da Revolta dos Búzios. Poucos sabem que aquele espaço foi palco de uma das mais brutais demonstrações do poder colonial sobre corpos negros. Ali, os líderes da revolta foram executados, esquartejados e tiveram seus corpos expostos publicamente como forma de intimidar qualquer tentativa de resistência à ordem escravocrata. Até hoje me pergunto se aquela praça representa um lugar de memória e resistência ou se continua lembrando o destino reservado àqueles que ousavam enfrentar um sistema construído sobre a escravidão.

Enquanto caminhava, uma cena me atravessou. Uma equipe de reportagem realizava seu trabalho normalmente. Ao lado, rente ao meio-fio, um homem negro permanecia estendido sob o sol. A cidade seguia seu ritmo. Os carros passavam, as pessoas caminhavam e o trabalho continuava. Nada naquela dinâmica parecia ser interrompido pela presença daquele corpo.

Curiosamente, o que mais me impactou não foi, a princípio, o homem deitado. Foi o olhar daquela câmera. Enquanto ela registrava um acontecimento da cidade, outro permanecia invisibilizado a poucos centímetros dali. Não sei qual era a pauta daquela reportagem. E isso pouco importa. O que aquela imagem revelou foi que, todos os dias, a cidade também escolhe o que merece ser visto e aquilo que pode permanecer invisível. Naquela fotografia coexistiam duas imagens da mesma cidade: a que estava sendo registrada pela equipe e a que eu decidi registrar.

O motivo do registro não foi a excepcionalidade da cena, mas sua banalidade. Aquele homem não era uma exceção. Era parte de uma paisagem que aprendemos a aceitar.  

O que me atravessou não foi apenas a naturalização da miséria. Foi perceber que, antes de tudo, ali estava um ser humano. Mas havia também um corpo negro, atravessado por uma história de racialização que ainda hoje define, de forma desigual, quem ocupa os lugares da proteção e quem permanece mais exposto à vulnerabilidade e à negação de direitos.  

A racialização não produz os mesmos efeitos sobre todos os corpos. A branquitude também é uma posição racial, mas foi historicamente construída como lugar de proteção, reconhecimento e humanidade presumida. Os corpos negros e indígenas, ao contrário, foram associados à servidão, à violência, à suspeição e ao descarte. Essa lógica não desapareceu com o fim da escravidão. Ela apenas encontrou novas formas de se reproduzir.

Não escrevo isso porque desejo ver corpos brancos ocupando esses lugares. Não quero ver corpo algum submetido à miséria. O que me inquieta é compreender por que determinados corpos continuam sendo empurrados, geração após geração, para os espaços de maior exposição ao risco, à violência, à fome, à ausência de moradia e à negação da cidadania.

Salvador é uma cidade majoritariamente negra. Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2022, cerca de 83% de seus mais de 2,4 milhões de habitantes se declaram pretos ou pardos. Mas ser maioria nunca significou ocupar os lugares de proteção, de decisão, de cuidado ou de dignidade. A cidade celebra a população negra quando ela forma rodas de capoeira, toca atabaques, dobra o Rum, cozinha, canta e sustenta a imagem da chamada “Capital Afro”. Entretanto, essa mesma cidade desvia o olhar quando essa população aparece nas calçadas, nos semáforos, nas portas dos supermercados, nos ônibus ou dormindo sobre o concreto quente.

O colonialismo não apenas explorou corpos. Ele ensinou uma forma de olhar para eles. Ensinou quais vidas deveriam ser protegidas e quais poderiam ser expostas ao sofrimento. Essa lógica continua organizando o espaço urbano porque o racismo não produz apenas desigualdades entre pessoas, ele territorializa corpos. Foi o projeto colonial que atribuiu aos corpos negros determinados lugares na sociedade, associando-os à servidão, ao trabalho precário, à violência e à marginalização, enquanto reservava aos corpos brancos os espaços de proteção, prestígio e poder. Esse olhar não terminou com a escravidão. Foi herdado, naturalizado e incorporado pelas instituições e pela própria sociedade, passando a orientar, ainda hoje, quem pertence a determinados espaços e quem permanece constantemente exposto à negação de direitos. É nesse sentido que o espaço também é racializado. A distribuição dos riscos, da vulnerabilidade e das oportunidades não acontece ao acaso. Ela acompanha uma longa história de hierarquização racial que continua determinando quem pode viver com dignidade e quem permanece à margem da cidadania. 

Sem moradia, o exercício pleno da cidadania torna-se inviável. A rua não é destino. A rua é resultado de escolhas políticas, prioridades econômicas e de uma sociedade que aprendeu a conviver com a desigualdade sem permitir que ela interrompa sua rotina.

Na Praça da Piedade não havia apenas um homem negro deitado no chão. Havia uma cidade inteira funcionando ao seu redor. Talvez essa seja uma das imagens mais precisas de Salvador: uma capital que fez da negritude um de seus maiores símbolos, mas que ainda não conseguiu reconhecer, proteger e garantir dignidade aos corpos negros que a constroem diariamente.

Foto: Davi Santos

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Criado por Jadson Nascimento

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