Farda de mentira, medo de verdade: quando o sofrimento vira piada nas redes 

Um homem negro entra em um carro de aplicativo para voltar para casa. A viagem começa normalmente. Passageiro e motorista, este último também negro, conversam. Em determinado momento, o motorista retira a camisa e revela estar fardado e armado. 

A reação do passageiro é instantânea. Ele entra em pânico.

Não é difícil entender o motivo. Sua residência está localizada em uma comunidade, como tantas outras no Brasil, atravessada pela presença do tráfico armado e por conflitos relacionados às operações policiais. O que parecia ser uma viagem tranquila de volta para casa se transforma, em poucos segundos, em um momento de desespero. Para o passageiro, era uma ameaça inesperada. Para o motorista, era uma encenação planejada para ser gravada e publicada nas redes sociais. Cancelar a corrida, pedir para sair do carro ou encontrar qualquer forma de interromper aquela situação parecem as únicas alternativas diante da possibilidade de um desfecho trágico. 

Para quem está dentro daquele carro, o medo é real. Do outro lado da tela, entretanto, o episódio é consumido apenas como mais um vídeo, uma brincadeira, um conteúdo rápido para passar o tempo. É diante dessa naturalização que vale perguntar: em que momento determinamos que o pavor de alguém pode virar entretenimento para outras pessoas? E por que determinados corpos parecem estar tão disponíveis para ocupar esse lugar de alvo?  

O policial e a arma eram de mentira. O medo, não.

O desespero, a angústia e o choro daquele passageiro eram reais. Para alguém que vive sob a rotina da violência periférica, encontrar um policial armado dentro de um carro está muito longe de ser uma simples “pegadinha”. Existe uma história por trás dessa reação: uma estrutura urbana marcada pela violência e por assimetrias de poder que atingem desproporcionalmente a população negra. É nesse cenário que o medo deixa de ser apenas uma reação individual e passa a revelar as desigualdades que definem quem está mais exposto à violência e à vulnerabilidade.  

A caricaturização do corpo negro não é novidade. Durante décadas, a televisão brasileira reproduziu estereótipos por meio de personagens como Mussum, interpretado por Antônio Carlos Bernardes, Adelaide, de Rodrigo Sant’Anna, e Vera Verão, de Jorge Lafond. Bebida, pobreza, aparência e sexualidade eram transformadas em elementos de humor, repetidos até se naturalizarem no imaginário coletivo. 

As redes sociais apenas atualizaram essa engrenagem: saem os atores contratados em cenários fictícios e entram pessoas reais, situações cotidianas e vulnerabilidades expostas diretamente ao público. 

Nesse processo, o constrangimento também pode produzir uma falsa aceitação: quem é ridicularizado muitas vezes precisa fingir que não se incomodou para não ser chamado de “sem humor”. Dizer que “era só uma brincadeira” ignora que a pessoa colocada no centro dela nem sempre teve a mesma liberdade de escolha de quem assiste. A pergunta, então, deixa de ser apenas “é errado rir?” e passa a ser: de quem estamos rindo e por que essa pessoa foi colocada nessa posição? 

Para compreender o que está por trás dessas situações, é preciso ir além da ideia de que se trata apenas de uma brincadeira. Uma das principais referências brasileiras para pensar a relação entre humor e racismo é o jurista Adilson Moreira. Doutor em Direito Constitucional pela UFMG e em Direito Constitucional Comparado pela Harvard, Moreira investiga como piadas, estereótipos e representações podem reproduzir desigualdades. A partir dessa discussão, ele denomina de Racismo Recreativo o uso do humor como expressão e encobrimento da hostilidade racial, contribuindo para a naturalização de estereótipos raciais.  

É precisamente por isso que o episódio daquele carro não pode ser entendido apenas como entretenimento. O humor racista não atinge somente quem está diante da piada. Seus efeitos podem ultrapassar o indivíduo e alcançar o grupo racial ao qual essa pessoa pertence, reforçando hierarquias e colocando em questão atributos como competência, capacidade, intelectualidade e mérito. 

É nesse processo que a racialização ajuda a entender, então, o funcionamento do racismo recreativo. A diferença não é apenas percebida, mas socialmente construída a partir de relações históricas de poder. 

A branquitude é posta como referência ética, estética e moral, enquanto a negritude é construída em oposição. Longe de ser um fato do passado, a ordem colonial deixou uma herança estrutural que prossegue organizando o presente: a abolição não foi acompanhada de políticas capazes de integrar a população negra com dignidade, enquanto o prestígio e o poder permaneceram concentrados na branquitude. É nesse contexto que a racialização atribui significados diferentes às identidades raciais e define quem é valorizado ou desqualificado. O humor racista encontra aí parte de sua força: não cria sozinho os estereótipos, mas atualiza significados construídos historicamente. 

Tomando o caso do jogador Vinícius Júnior, é possível perceber como uma ofensa racista dirigida a uma pessoa específica ultrapassa o indivíduo. À primeira vista, o estádio internacional e o banco de trás de um carro de aplicativo parecem mundos distantes: de um lado, um atleta hipervisível; de outro, uma pessoa comum. Mas há algo que aproxima essas situações: em ambas, a identidade racial pode ser mobilizada para colocar uma pessoa negra em posição de inferioridade diante dos outros. Seja no riso de uma pegadinha nas redes ou nos cantos hostis de uma arquibancada, a ofensa também comunica ao coletivo quem pode ser desvalorizado, desrespeitado e colocado à margem. 

É também nesse contexto que entram as microagressões. Adilson Moreira chama atenção para formas sutis e recorrentes de preconceito, expressas em palavras, gestos e práticas cotidianas que comunicam desprezo ou inferiorização. Por parecerem banais ou serem justificadas como brincadeira e opinião, essas manifestações se repetem e acabam tornando representações racistas parte do cotidiano.

No episódio do carro, o motorista utilizou conscientemente uma relação de medo que já existia antes daquela viagem para produzir uma reação. O desespero do passageiro não era um efeito colateral da brincadeira, mas parte do que tornava aquela situação o próprio combustível do conteúdo. Quando essa vulnerabilidade está relacionada à raça, ao território e à posição social, o entretenimento pode acabar reforçando os mesmos lugares de medo, desconfiança e desvalorização que atingem essas populações fora das telas. 

Essa lógica não se limita ao caso do carro. Vulnerabilidades de trabalhadores informais, pessoas em situação de rua e outros grupos também podem ser transformadas em matéria-prima para o entretenimento. Isso não significa que toda exposição do sofrimento reproduza violência: denunciar o racismo e transformar a violência em espetáculo são coisas diferentes. 

Nas redes sociais, essa lógica ganha uma nova dimensão. Plataformas movidas pela disputa por atenção favorecem conteúdos capazes de provocar respostas imediatas, como riso, choque, indignação ou curiosidade. Quanto maior a reação do público, maior pode ser a circulação e o valor daquele conteúdo. 

É por isso que precisamos voltar à pergunta que abriu este texto: em que momento determinamos que o pavor de alguém pode virar entretenimento para outra pessoa? E talvez a pergunta precise ser dirigida também a quem está do outro lado da tela: o que estamos ajudando a tornar normal quando assistimos, rimos e compartilhamos? Quem estamos transformando em personagem para que possamos passar alguns segundos nos divertindo? 

O policial e a arma eram de mentira. O medo, não. Quando o sofrimento de alguém se transforma em conteúdo, o problema não termina quando o vídeo acaba. Ele continua circulando, produzindo audiência e reforçando a ideia de quem pode ser transformado em motivo de riso e quem permanece protegido de ocupar esse lugar.

Fotos: Créditos: (IA)/Reuters/Aline Massuc/O Globo/ Thiago Lontra/Rodrigo Casanossa/Getty Imagens/Reprodução

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Criado por Jadson Nascimento

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