Olubajé: o banquete da cura

No Ilê Axé Omi Ijexá, no Dique Pequeno, em Salvador, o Olubajé dedicado a Omolu reúne tradição, memória, fartura e sentidos de cura sob os cuidados da Ialorixá Niralva Silva. 

Agosto, o oitavo mês do ano, é para nós, adeptos do Candomblé, um período de celebrar o grande rei e senhor da terra: Omolu. A celebração, conhecida como Olubajé, é um grande banquete composto por comidas que representam diversos orixás, servidas em folhas de mamona, o prato do mundo.

Mas o que deu origem ao Olubajé? Segundo um itan (histórias antigas que narram vivências dos orixás durante sua passagem pelo Ayê, a terra), Xangô, que tem entre suas características a aversão à morte e ao sofrimento, realizou uma grande festa e convidou todos os orixás, menos o rei e senhor da terra. E ordenou que todos poderiam entrar no palácio, menos Omolu.

Triste por ter sido impedido de participar da festa de seu irmão, Omolu colocou as mãos para trás, coçou-se na entrada do palácio e se retirou. Ao final da celebração, os convidados que deixavam o palácio começaram a sentir fortes dores e sofreram com uma grande diarreia, algo que, para alguns dos mais velhos, remetia à cólera.

Sem entender o que estava acontecendo, Xangô foi à procura de Orunmilá, orixá da sabedoria, ligado ao destino e à adivinhação. Depois de ouvir o relato, Orunmilá revelou a Xangô que a epidemia que se espalhara após a festa era consequência da exclusão de Obaluaê. E para reverter a situação, Xangô deveria oferecer um banquete ao irmão que deveria estar sentado seu trono.

Disposto a reparar o erro, Xangô foi até Omolu para pedir desculpas e convidá-lo a sentar-se em seu trono. Magoado, porém, Obaluaê recusou o convite e ignorou o pedido. Diante da tentativa frustrada, Xangô pediu ajuda aos demais orixás. 

A primeira foi Iemanjá, rainha das águas e mãe de criação de Obaluaê. A tentativa, no entanto, não teve sucesso. Em seguida, Nanã, a mais velha das yabás e mãe biológica de Omolu, também tentou convencê-lo, mas não conseguiu. Oyá, orixá dos ventos e que possui uma forte ligação com Obaluaê, também tentou persuadi-lo. Mais uma vez, sem sucesso. 

Depois de tantas tentativas, os orixás decidiram pedir ajuda a Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e profundamente ligada à magia ancestral feminina. Oxum aceitou ajudar Xangô. Após se paramentar com edés e gizos, chamou Obaluaê enquanto cantava. Encantado pela melodia produzida pelo som dos adornos, Omolu passou a seguir Oxum, que caminhava em direção ao palácio do rei. Quando percebeu, Obaluaê já estava sentado no trono de Xangô, diante de um grande banquete preparado especialmente para ele. Ali, aceitou as desculpas do orixá e compartilhou o alimento com todos.

E assim nasce a grande celebração do Olubajé, que, dentro dos terreiros, carrega profundo significado e uma série de ritualísticas. Para muitos uma oportunidade de compartilhar do banquete do grande rei e senhor da terra, orixá associado à cura e às doenças. Um momento de confraternização, fartura e, sobretudo, de cura.

Mais do que uma celebração, o Olubajé nos lembra que até mesmo os conflitos entre aqueles que amamos podem deixar marcas. Mas também nos ensina que reconhecer o erro, pedir desculpas e abrir espaço para o outro pode ser o primeiro passo para restaurar aquilo que foi rompido.

No banquete de Omolu, ninguém come sozinho. A fartura é compartilhada, a memória é preservada e a cura se manifesta também na possibilidade de recomeçar.

As imagens a seguir são registros do Olubajé do terreiro Ilê Axé Omi Ijexá, localizado no Dique Pequeno. Zelado pela yalorixá Niralva Silva.

Confira todas as fotos aqui!

Foto: Matheus Lens

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Criado por Jadson Nascimento

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