“Dói quando naturalizamos coisas ruins”: Ricardo Pecego fala como o desejo por justiça moveu a escrita do seu livro “Cidadão”

A Coleção de contos “Cidadão” (Editora Cachalote, 2025) cria uma cartografia da cidade de São Paulo a partir daqueles que estão à margem.

Por Ewerton Ulysses Cardoso

Desde que escrevi sobre o livro “Cidadão”, do escritor Ricardo Pecego, tive vontade de entrevistá-lo. O livro me arrebatou enquanto lia. Como o próprio título nos apresenta, é uma reflexão sobre a cidadania a partir da ficção. Para representar a maior metrópole do país, São Paulo, Ricardo Pecego fugiu do estereótipo da cidade das oportunidades e se dedicou a compreender as contradições dessa selva de pedra. 

Nesse sentido, a coletânea de contos nos leva para lugares incômodos da cidade, longe do seu suposto glamour cosmopolitano. Dentre os espaços cartografados, um se destaca: a cracolândia. Pecego cria narrativas que jogam luz sobre este que é um dos grandes problemas da sociedade brasileira. Faz isso de uma maneira incômoda. As histórias podem provocar reações que vão da compaixão à raiva e ao nojo. 

Em entrevista, Pecego me contou um pouco sobre a sua própria relação conflituosa com a cidade de São Paulo e falou sobre como as injustiças do mundo movem a sua escrita. 

Em “Cidadão”, você escreve sobre a cidade de São Paulo a partir das suas exclusões. Gostaria de saber como se dá a sua própria relação com a cidade e como aquilo que você vivenciou na cidade de São Paulo influenciou no livro. 

Minha relação com São Paulo é uma mistura de saudade e afastamento. Tenho saudade de estar mais próximo de meus familiares e amigos. Contudo, principalmente depois que me tornei pai, vejo que o melhor para saúde mental, física e para partilhar o tempo necessário entre família e trabalho, morar em São Paulo não seria uma boa opção. Ainda mais por ter laços fortes também no interior.

A influência da minha vivência em São Paulo com os contos do Cidadão vem desde a adolescência. Meu primo era um lojista na Galeria do Rock e foi assim que o centro de São Paulo entrou nas minhas andanças. Outro fator importante é que fui um assíduo frequentador de shows e percebi quando a internet passou a regular o acesso e os preços dos eventos, senti no bolso. Conforme o tempo passou, era nítido o surgimento da Cracolândia e a delimitação de seu território até que em 2017 presenciei a Faxina, conto de abertura do livro, acontecendo ao vivo.

Além disso, morei na Zona Leste, vivi 33 anos na Vila Alpina, que retrato no conto Bandola. Tudo está bastante diferente por lá, inclusive a casa em que morei. Nesse caso, a literatura serviu como ponte ao saudosismo do tempo dos encantos de menino e de quando a seleção brasileira dava espetáculo.

Importante também foi destacar o contemporâneo da cidade. Os movimentos que nela acontecem, nos contos Pulso (segundo conto) e Retirantes, que encerra o livro, onde retrato os movimentos organizados por entidades como IBEAC e involuntários como da Dona Vera no Restaurante Copa. É inspirador compreender a cidade respirando, sendo transformada para melhor, rejeitando o preconceito e nos motivando a enfrentar o caos generalizado.

Alguns dos contos do livro dão conta da vivência de usuários de crack no contexto da cracolândia. De onde veio o interesse em falar desse grupo em específico?

A Cracolândia é para mim uma mancha urbana imaterial. Nós não podemos vê-la por uma fotografia, mas sabemos perfeitamente os seus limites. Ela deforma o entorno, vibra numa frequência triste e nos causa sensação de perigo, principalmente quando nos deparamos com seus habitantes. Tive bem próximo da família alguns conhecidos queridos vítimas do crack, pessoas que assisti tragando a fumaça e instantaneamente se transformando em outra.

Então falar desse grupo, desse lugar era para mim necessário. Dói quando naturalizamos coisas ruins. Isso move minha escrita.

Muitos dos contos do livro — senão todos — buscam também tocar em alguma causa social e denunciar uma situação de violência. Diante das atuais polêmicas literárias que questionam o valor da literatura dita “engajada”, como você enxerga essa escrita que denuncia e assume uma posição política e ideológica?

Com a cosmovisão vigente eu tomaria aquela célebre máxima que diz: “Escrever é um ato político.”, transformando-a em: “Existir é um ato político.”.

Conceito posto e não imposto, cada artista percebe o mundo de uma maneira e isso inspira seu trabalho. Eu escrevo sobre meus machucados, com a “clareza” de quem resolveria o mundo de uma forma muito mais simples, mas que causaria um grande debate contrário. Através dos meus livros posso desenhar mundos possíveis, impossíveis e até meios termos de mundo. Extravasar essas possibilidades é o que me movimenta.

Não propago ideologias. Aprendo todos os dias com pessoas como Sueli Carneiro, Aílton Krenak que não represento lado nenhum. A não ser o meu próprio, no sentido mais coletivo que isso possa significar.

Apesar desse caráter dito “ideológico”, você não recorre a um certo didatismo, como é comum de se fazer. Como você buscou fazer essa escrita não maniqueísta e mais complexa?

Justamente aceitando as diferenças. Observo e absorvo ensinamentos, situações e conceitos de pessoas que passam por essa existência como verdadeiros faróis neste tumultuado mar revolto que se tornou a vida atrelada à cosmovisão da performance, do rendimento, do dinheiro e da competição.

Consigo e me permito dialogar com quem pensa diferente, mas não aceito discursos de ódio de espécie alguma. Temos marcos civilizatórios importantes que devem pautar nossas vidas como os Direitos Humanos, por exemplo.

O mais importante é fugir deste modelo de debate estabelecido nas redes sociais, principalmente onde a lacração predomina. Parece que só temos uma opção ou outra. Importante não é debater e sim defender seu paradigma mesmo que pareça absurdo diante do argumento do outro. Vejo gente com enorme potencial se envolvendo nessas brincadeiras de criança do século XXI.

Quando escrevi uma crítica sobre o seu livro, mencionei sobre as semelhanças que encontrei na sua forma de narrar e a forma de narrar de outros dois excelentes contistas: João Gilberto Noll e Dalton Trevisan. Esses autores te influenciaram? E quais outros?

Quando li essa linha na sua crítica, confesso que fiquei um tanto espantado e honrado ao mesmo tempo. São dois escritores de um panteão que observo de baixo, admiro tudo que li, mas não são os que mais me influenciam. Se fosse escolher autores que influenciam meus textos escolheria entre os que considero clássicos: Érico Veríssimo, Graciliano Ramos e James Baldwin. Dos contemporâneos o Daniel Brazil, e a Natália Borges Polesso. Ao ler esse pessoal tenho uma vontade enorme de escrever, quase que respondendo a eles através das minhas histórias.

O livro possui um formato que cria uma certa linearidade, ou melhor, a construção de uma narrativa única a partir dos contos, o que demonstra que você não apenas selecionou contos diversos, mas pensou no livro. Conta como foi essa etapa de construção do livro e a escrita dos contos.

Essa é uma pergunta de muitos dos leitores do Cidadão. Cada conto tem sua particularidade, mas o conto principal, que dá nome ao livro, é a chave mestra do todo. Dele surgiu a inspiração dos demais. Conforme fui escrevendo a saga do cidadão por São Paulo, percebi que determinadas situações poderiam ser desdobradas em outras histórias, tão vivas quanto a principal.

Então quando o cidadão pernoita na frente da estação Bresser, ele acorda e come pastel do japonês resolvi dar protagonismo às centenas de pasteleiros de São Paulo. Daí nasceu o conto Bandola. O cidadão também cuida do Luza outro que como ele está nas ruas. Me perguntei: será que todos estão nas ruas por uma razão? O Luza então reaparece no conto Espera. Aguardando o retorno da irmã no Largo São Bento. O cidadão é chutado pelo Salomão Neto, comerciante tradicional da República, que inspirou o conto Carrilhões e por aí vai.

Somente o último conto alterou o conteúdo do conto Cidadão, pois ele foi um acontecimento do meu retorno à região da Luz no restaurante da Dona Vera, quando eu já tinha os demais onze contos escritos.

Escrever o livro, em alguma medida, transformou o modo como você viu a cidade?

Muito e não apenas da grande cidade.

Tanto que para o próximo livro, mais descolado da realidade (será?), vou tentar um tipo de regeneração da cidade.

Participei uma roda de leitura em Santo Antônio do Jardim, onde as leitoras mostraram que ali no lugar que vivem apenas 6000 habitantes, guardadas as devidas proporções, também existem invisíveis que preferimos na correria deixar de lado na vida real, para reclamar através das redes sociais.

Ewerton Ulysses Cardoso é comunicador, editor e criador da revista O Odisseu. Pesquisa literaturas africanas de língua portuguesa no Programa de Pós Graduação em Estudos Literários na Universidade Federal Fluminense.

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