Em “Coração Disparado”, artista baiano celebra 10 anos de carreira retomando a força da canção direta, entre memórias, amor e encontros compartilhados.
Há artistas que gravam discos para depois levá-los ao palco. Com “Coração Disparado”, Giovani Cidreira escolheu fazer o caminho inverso. O novo projeto do cantor e compositor baiano nasce justamente do encontro ao vivo, da escuta coletiva e da troca imediata com o público. Registrado na Casa de Francisca, em São Paulo, o álbum marca os 10 anos de trajetória do artista e reafirma sua habilidade de transformar intimidade em experiência compartilhada.
O disco propõe uma volta à essência da canção brasileira: voz, violão e presença. Em cena, Giovani aposta em arranjos minimalistas, sustentados pela força da interpretação e pela proximidade construída com a plateia. Cada silêncio, cada reação e cada respiração passam a integrar a própria música.
“‘Coração Disparado’ nasce do encontro. Eu quis começar esse projeto pelo palco, pelo momento vivo da canção acontecendo entre mim e o público. É um disco de voz, violão e presença”, afirma o artista. “Também é um retorno à forma mais direta da canção: composições simples, honestas, que falam de amor, de memória e dos afetos que nos atravessam.”
Essa dimensão coletiva também atravessa o audiovisual do projeto. Parte das imagens utilizadas nos vídeos e conteúdos visuais foi produzida pelo próprio público, incorporando os espectadores não apenas como testemunhas, mas também como criadores da experiência.
Ao longo do repertório, Giovani Cidreira revisita referências afetivas, memórias do interior da Bahia e relações atravessadas pela saudade, pelo desejo e pelas contradições da vida contemporânea. Em “Denga”, primeiro single do projeto, o artista retorna às paisagens emocionais da infância nordestina, às casas simples, às varandas, aos interiores próximos da praia e da família, construindo uma canção sobre pertencimento e acolhimento.

Já “Temprero” surge a partir das pequenas delicadezas do cotidiano: um almoço compartilhado, um café, os cheiros e as cores que ficam marcados quando alguém passa a ocupar um lugar importante na vida. Enquanto isso, “Farol” reflete sobre a velocidade do tempo e o esvaziamento das relações contemporâneas, reafirmando a importância dos vínculos e da permanência afetiva.
Entre as faixas mais densas do álbum está “Lembrança”, composição que dialoga diretamente com a tradição do cancioneiro nordestino e aborda temas como infância, vulnerabilidade social e cuidado coletivo. Em contraste, “Nem é verão” se aproxima do encantamento amoroso, retratando o surgimento de conexões capazes de reorganizar o cotidiano mesmo em tempos de crise e incerteza.
O disco também abre espaço para reflexões sobre as tensões emocionais do presente. Em “Controle de fadas”, parceria com Benke Ferraz, Giovani observa as dinâmicas tóxicas que podem atravessar os relacionamentos afetivos. Já “Música de trabalho” mergulha nas pressões econômicas, na exaustão urbana e no sentimento coletivo de insuficiência que marca a vida contemporânea.
A presença de Benke Ferraz atravessa todo o projeto. Parceiro de longa data de Giovani, ele assina a produção musical dos discos e acompanha o artista no palco. A direção artística é de Rodrigo Gorky, nome fundamental da música brasileira contemporânea e responsável por criar a unidade estética entre os registros ao vivo e em estúdio.

Natural do interior da Bahia, Giovani Cidreira construiu uma trajetória marcada pela mistura entre canção popular, ritmos afro-brasileiros, música eletrônica e experimentação pop. Desde o impacto de Japanese Food, lançado em 2017, o artista passou a ocupar lugar de destaque na nova geração da música brasileira, consolidando uma obra reconhecida pela crítica e por parcerias com nomes como Liniker, Linn da Quebrada, Urias e Don L.
Com “Coração Disparado”, Giovani parece menos interessado em construir grandes espetáculos e mais disposto a reafirmar a potência do encontro simples entre música e escuta. Em tempos marcados pela velocidade e pela dispersão, o artista transforma o palco em espaço de afeto, memória e permanência, um lugar onde a canção ainda consegue fazer o coração bater mais forte.
Fotos: Bruno Prada
