Saberes manuais viram experiências no L’Attelier de Ema Guita

A equipe do Portal Diáspora através do projeto Inkumbú: Guardiãs do Tempo, visitou o L’Attelier – localizado no IMOTH Instituto Moçambicano de Terapias Holísticas, em Matola (Moçambique), para conhecer de perto o trabalho da artista e empreendedora moçambicana Ema Guita. O espaço funciona como um território de criação, ensino e bem-estar, onde arte, sensorialidade e impacto social se cruzam em processos que valorizam o tempo, o fazer manual e a troca de saberes.

Artesã desde 2013, Ema construiu sua trajetória a partir de uma relação contínua com o artesanato, inicialmente por meio da criação de acessórios como brincos e colares. Desde o início, incorporou o reaproveitamento de materiais como princípio ético e estético, buscando estender a vida útil de elementos que seriam descartados. Sua experiência anterior com marketing e eventos permaneceu como base de atuação, influenciando a criação de uma feira periódica de artesanato, iniciada em Matola e posteriormente levada a Maputo, que a manteve conectada ao setor cultural e criativo.

Ao longo dos anos, o trabalho se expandiu para outras áreas, como a marcenaria e, mais recentemente, a saboaria artesanal. Durante o período da pandemia, a interrupção dos eventos impulsionou uma mudança de foco, fazendo com que a produção de sabonetes ganhasse centralidade, associada à ideia de cuidado, consciência e autocuidado. Mais do que produzir em escala, Ema passou a estruturar uma rede de acesso à matéria-prima, importada e disponibilizada localmente para quem deseja iniciar ou fortalecer sua atuação no campo dos cosméticos artesanais.

O L’Attelier se consolidou como um espaço multifuncional, onde diferentes saberes se encontram. A necessidade de autonomia levou Ema a integrar também o design gráfico aos processos, aprendendo o básico para acompanhar de perto todas as etapas da criação. Dessa forma, o projeto se organiza como uma “casa-mãe”, da qual se desdobram diversas frentes de atuação, sempre articuladas pela presença direta da artista.

A saboaria ocupa um lugar central nessa trajetória, tanto como prática quanto como linguagem pedagógica. O interesse pela técnica surgiu a partir da observação de experiências familiares e da identificação de lacunas no acesso à matéria-prima em Moçambique. A partir de pesquisas e referências internacionais, com forte influência inicial do Brasil, Ema desenvolveu um trabalho que une produção, ensino e partilha, reforçando o L’Attelier como um espaço de experiências, encontros e construção coletiva.

Confira na íntegra, a entrevista exclusiva que a artista concedeu ao Portal Diáspora

Qual foi o primeiro contato que teve com a saboaria e o que a fascinou a ponto de torná-la uma das bases do L’Attelier?


“O nome L’Attelier veio primeiro, pelo significado de oficina, que representa bem tudo o que acontece aqui. A saboaria surgiu a partir de um contato próximo, observando a dificuldade de acesso à matéria-prima e os custos envolvidos. Para vender, eu precisava conhecer profundamente o produto, entender o processo e poder orientar quem comprava. Comecei pesquisando na internet, com vídeos brasileiros, e depois ampliei as referências para outros países. Foi assim que a saboaria se tornou uma base do meu trabalho.”

Você costuma dizer que cria experiências, não apenas produtos. Quando percebeu que o trabalho precisava ir além do objeto físico?


“Sempre gostei mais de ensinar do que apenas produzir. O compartilhamento me move. Quando percebi o interesse das pessoas e notei que alguns processos poderiam ser melhorados, entendi que ensinar seria o caminho. As oficinas e workshops surgem desse lugar de partilha, seja na saboaria, na marcenaria ou em outras técnicas. Mesmo desde o tempo das feiras, a troca e a orientação já faziam parte do meu trabalho.”

Como você consegue manter a identidade do projeto atuando em áreas tão diversas?

“A identidade se mantém porque estou à frente de todas as áreas. O L’Attelier é a marca principal, e as ramificações partem dela. A minha presença é o ponto de união entre tudo. Trabalho com parceiros e equipe quando necessário, mas a essência permanece a mesma“.

Existe uma conexão entre Brasil e Moçambique nas suas produções?”


“Existe muita referência visual, principalmente nos acessórios. O Brasil é uma grande referência em artesanato pela diversidade de materiais, técnicas e usos. Apesar das diferenças geográficas e culturais, há diálogos possíveis, e o Brasil contribui muito como fonte de pesquisa para algumas áreas da minha produção.”

A música acompanha seus processos criativos?


“Acompanha, sim. A música brasileira está sempre presente. Gosto de bossa nova, jazz e de uma bossa mais moderna, mais leve. Vai muito do dia e do estado de espírito, mas a música faz parte do ambiente de criação.”

Fotos: Alexandro Santos | Portal Diáspora

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Criado por Jadson Nascimento

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