O projeto de extermínio da Feira de São Joaquim é um ataque direto ao Candomblé 

Por Paulo Lima 

Existe um provérbio iorubá que não é apenas uma frase de efeito para estampar camisetas, mas um aviso de sobrevivência que ecoa como lei nos terreiros da Bahia: “Ko si ewe, ko si orisa” sem folha, não há orixá. A sabedoria ancestral nos alerta, de forma inegociável, que a divindade exige matéria, natureza e sangue para se manifestar. O sagrado não é abstrato; ele é tangível. Mas para que a folha sagrada, o animal do sacrifício e o barro cru cheguem até o peji e alimentem o santo, eles precisam atravessar um caminho físico, real e hoje sentenciado à morte. Esse caminho, em Salvador, tem nome, endereço e alma: a Feira de São Joaquim. 

Não nos enganemos com maquetes bonitas e discursos de modernidade: enquanto a cidade discute a feira sob a ótica fria da economia ou do turismo de vitrine, está em curso um projeto silencioso e brutal de extermínio cultural. É urgente que nós, povo de santo e pesquisadores da negritude, gritemos o óbvio que o poder público tenta esconder sob tapumes de obra: a Feira de São Joaquim não é apenas um mercado de abastecimento popular. Ela é o pilar teológico, logístico e civilizatório da religiosidade afro-brasileira. Destruir, descaracterizar ou “higienizar” esse espaço com projetos de “requalificação” urbana não é apenas um erro urbanístico; é uma tentativa deliberada de asfixia litúrgica. Estamos diante de um racismo religioso institucionalizado, disfarçado de progresso e bem-estar social. 

Como pesquisador das relações étnico-raciais, classifico São Joaquim como um verdadeiro “quilombo comercial” sitiado. Dialogando com o pensamento do antropólogo Jocélio Teles, aquele espaço é um território de guerra simbólica pela manutenção da herança africana. Ali, a lógica predadora e individualista do capitalismo ocidental é subvertida na marra, no grito, na negociação. O que se vê nos corredores estreitos, entre a lama, os cheiros fortes e a mistura de vozes, não é apenas comércio; é a manutenção da vida do axé. É o único lugar de uma metrópole segregada onde se encontra o alguidar na porosidade exata para o assentamento, a palha da costa trançada com a técnica secular e as ervas frescas colhidas no tempo certo itens que jamais sobreviveriam nas prateleiras geladas, estéreis e codificadas de um supermercado de rede.

A feira é, literalmente, o pulmão que permite ao Candomblé respirar. E esse pulmão está sendo sufocado de propósito. A especulação imobiliária voraz e os projetos de gentrificação da Cidade Baixa não querem conviver com o cheiro do dendê ou com o sangue do sacrifício; eles querem transformar nosso solo sagrado em um cenário “instagramável” para turista ver, esvaziado de alma e preenchido por lojas de souvenirs e cafés gourmet. A pergunta que fica, e que o Estado se recusa a responder, é brutal: quando o feirante tradicional for expulso pelo aluguel impagável dos novos boxes padronizados, quem ocupará seu lugar? 

O “mercado modelo” que se desenha nos gabinetes refrigerados do governo não prevê a presença do vendedor que detém o “fundamento”. Aquele senhor ou senhora que está ali há trinta anos não é um mero comerciante; é um bibliotecário de saberes ancestrais. É quem sabe a diferença vital entre a folha que esfria e a que esquenta, entre a folha de gun e a de ero. Um código de barras não sabe o que é fundamento. Um atendente de franquia não sabe o que é preceito. 

Trocar o erveiro raiz por um empreendimento de luxo é decretar a morte do culto pela inviabilidade prática. A tentativa de “embranquecer” a Feira de São Joaquim é uma forma violenta de epistemicídio e limpeza étnica urbana. Ao inviabilizar o acesso financeiro e geográfico aos insumos sagrados, o Estado enfraquece a prática religiosa na sua base material. Tentar matar a feira é tentar matar o santo pela fome e pela escassez. Defender a permanência da Feira de São Joaquim em seus moldes originais, caóticos, sujos e vivos, não é saudosismo de quem parou no tempo; é legítima defesa de um povo que se recusa a desaparecer. A feira é solo sagrado. E em solo sagrado, a bota da especulação imobiliária não pode pisar. 

Paulo Lima: graduando em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), pesquisador das relações étnico-raciais e professor do Programa Universidade Para Todos (UPT). Sua pesquisa foca na memória social, resistência negra e nas dinâmicas urbanas de Salvador.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição do Portal Diáspora

Foto capa: Márcia Eduarda

Fotos texto: Projeto 3D Conder

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