Entre cores que respiram, rostos que encaram o mundo e gestos que carregam memória, a artista moçambicana Nefer apresenta a sua primeira exposição individual, ‘Nós Somos a Arte’, em cartaz até 20 de dezembro, no IMOTH Instituto Moçambicano de Terapias Holísticas, localizado em Moçambique, especificamente na Matola, capital de Maputo. Com curadoria de Luís Marum, a mostra propõe um mergulho sensível nas camadas da identidade, da representatividade e da visibilidade do ser humano.
A exposição nasce de um questionamento íntimo que atravessa toda a obra de Nefer. Que tipo de arte pode tornar as pessoas visíveis e representadas, tanto na sociedade quanto para si mesmas. A partir dessa inquietação, a artista constrói uma coleção que se apresenta como espelho e travessia, onde emoções, consciência, beleza, ancestralidade e tempo coexistem em equilíbrio.
Entre cores, texturas e movimentos, Nefer transforma inquietações em formas que falam sobre pertencimento, memória e existência. A capulana, os cabelos e outros elementos surgem como símbolos de identidade. Os rostos aparecem como janelas abertas para vozes que nem sempre encontram espaço. Cada obra convida à reflexão sobre quantas vezes a arte nos fez sentir vistos, acolhidos e lembrados.

‘Nós Somos a Arte’ constrói um enredo que reconhece o valor dos gestos simples, das cenas cotidianas e dos corpos em movimento. Fragmentos do dia a dia revelam, na verdade, a força do que somos. Entre críticas sociais e celebrações da vida, a mostra desperta sentimentos de nostalgia e pertencimento, evocando raízes, africanidade e moçambicanidade.
A equipe do Portal Diáspora conversou com Nefer, na Matola, durante o período expositivo no IMOTH. Na conversa, a artista compartilhou o seu percurso e a relação profunda com a arte, entendida como linguagem primeira. Para ela, criar sempre foi uma forma de existir no mundo.
Como foi o seu primeiro contato com a arte? Você se reconhece artista desde cedo?
Eu acredito que eu nasci artista. Pinto desde que me entendo como gente. Sempre gostei de desenhar, de pintar, de criar imagens. Para mim, a arte é a forma com a qual eu melhor me expresso como ser, como alma, como pessoa. Durante muito tempo, a pintura esteve presente de forma mais recreativa, mas sempre foi um espaço de verdade para mim.
Houve momentos de pausa nesse percurso. O que marcou o seu retorno à pintura e o início de uma trajetória mais consciente como artista?
Sim, ao longo da vida tive algumas pausas. Fiquei cerca de cinco a sete anos sem pintar. Foi apenas em 2024 que voltei a pintar pela primeira vez depois desse tempo. Esse retorno foi muito forte, porque ali aconteceu o despertar da Nefer artista. Entendi que era isso que eu queria fazer, não apenas como um exercício pessoal, mas para partilhar com o mundo, com as pessoas, e levar a arte de forma mais séria. Essa exposição nasce desse momento.


‘Nós Somos a Arte’ é a sua primeira exposição individual. O que esse momento representa para você?
Representa um marco muito importante. É a primeira vez que me apresento ao público como artista de forma individual. É um gesto de coragem, mas também de entrega. É compartilhar uma parte muito íntima de quem eu sou, das minhas questões, das minhas inquietações e da minha forma de ver o mundo.
A exposição parte de um questionamento muito íntimo sobre visibilidade e representação. Como essa pergunta atravessa o seu processo criativo?
A pergunta que me acompanha é que tipo de arte posso criar que torne as pessoas visíveis e representadas, tanto na sociedade como para si mesmas. Esse questionamento guia todo o meu processo. As obras surgem desse desejo de espelhar o ser humano em sua essência, com as suas emoções, a sua consciência, a sua beleza e a sua ancestralidade. Não é apenas sobre estética, é sobre reconhecimento.

Os rostos, os cabelos, a capulana e os corpos em movimento aparecem como elementos centrais na exposição. O que eles simbolizam para você?
Esses elementos falam de identidade. Os cabelos aparecem como raízes, como continuidade. A capulana carrega memória, cultura e pertencimento. Os rostos são janelas que se abrem para histórias que nem sempre são ouvidas. Cada elemento carrega uma narrativa própria, mas juntos constroem um corpo coletivo, um espelho onde muitas pessoas podem se ver.


Na sua visão, qual é o papel da arte na construção de pertencimento, especialmente para mulheres negras?
Como mulher negra, acredito que a arte pode ser uma ferramenta de incentivo e fortalecimento. Criar é também abrir caminho para outras mulheres, para meninas negras que ainda estão a descobrir o mundo. Mostrar que é possível ocupar esses espaços, produzir arte, narrar a própria história. Uma das minhas missões como artista é contribuir para enriquecer a arte e a cultura a partir desse lugar.


Que conselho você deixaria para artistas que estão iniciando o seu percurso agora?
Eu diria para continuarem a estudar, a informar-se e a rodear-se de outros artistas. Não apenas da mesma área, mas de diferentes linguagens. As trocas são muito importantes. O caminho artístico não é linear, não existe um manual. É um percurso fluido, orgânico, muito ligado ao que sentimos. Seguir essa chama interior é fundamental.
A exposição ‘Nós Somos a Arte’ permanece aberta ao público até o dia 20 de dezembro, próximo sábado. As datas e horários das visitas são divulgados pela própria artista em suas redes sociais, com encontros presenciais ao longo do período expositivo e encerramento no último dia.
Fotos: Alexandro Santos | Portal Diáspora

2 Comments
Incrível 🙌🏾
Muito!!