Quando Exu entra no calendário, a cidade responde

A entrada do Olojá no calendário oficial de Salvador desloca uma questão antiga para o centro do debate urbano. Não se trata apenas de registrar uma festa, mas de reconhecer quais práticas podem ocupar legitimamente o espaço público. Ao reunir cerca de 100 terreiros na Feira de São Joaquim, a iniciativa inscreve no cotidiano da cidade uma presença que historicamente foi empurrada para zonas de invisibilidade.

A escolha da feira não é um detalhe. Ali se cruzam comércio popular, circulação de pessoas e práticas culturais que resistem há décadas. Quando Exu, associado à comunicação e às trocas, é celebrado nesse território, a imagem se torna difícil de ignorar. Há uma correspondência direta entre o orixá e o espaço, mas também um gesto que reposiciona os terreiros no mapa simbólico da cidade.

Anane Simões, conhecida como Dantayo, situa esse movimento como uma decisão política. Ao levar o Olojá para a rua, com cantos, corpos e rituais, o que se constrói é uma disputa de narrativa sobre quem tem direito de aparecer e de produzir sentido no espaço urbano. A ocupação da feira por dezenas de casas de santo rompe com a lógica de confinamento que por muito tempo marcou as religiões de matriz africana. Em vez de permanecerem restritas, elas se apresentam publicamente, reivindicando pertencimento.

O reconhecimento institucional, por sua vez, abre outra camada de discussão. Estar no calendário oficial não resolve, por si só, as condições de realização. A própria organização do evento aponta que a estrutura ainda depende de esforço direto dos terreiros e de articulações contínuas. A formalização, nesse caso, funciona como ponto de partida, não como resultado final. Ela expõe a distância entre reconhecimento simbólico e investimento concreto.

Esse descompasso aparece também nos dados. Relatórios do Ministério dos Direitos Humanos indicam que a maioria das denúncias de intolerância religiosa no Brasil envolve religiões de matriz africana, cenário que persiste mesmo em cidades com forte presença dessas tradições. Em Salvador, onde a população negra é majoritária segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a contradição se acentua. A cultura que sustenta parte significativa da identidade local ainda enfrenta barreiras quando ocupa o espaço público de forma explícita.

A fala da secretária municipal de reparação, Isadora Genoveva, insere o Olojá em um processo mais amplo. “Então, é uma vitória espiritual que reverbera no político. O processo de reparação histórica envolve isso, o reconhecimento dessa ancestralidade que construiu esse país a partir de Salvador. A religião de matriz africana é o que sustenta a base da nossa cultura. Estamos na música, no samba, no teatro, na culinária. O povo de Axé traz isso. Esse reconhecimento de fazer parte do calendário das festas populares de Salvador é um processo de reparação histórica, ancestral e política.” A declaração conecta a oficialização da festa a uma agenda de reparação que ultrapassa o campo cultural e alcança o campo institucional.

O Palco Nagô, inserido na programação, aponta para outra dimensão desse debate. Ao reunir expressões como samba de terreiro, afoxé e capoeira, o espaço evidencia que os terreiros operam também como centros de produção artística. Durante muito tempo, essas linguagens circularam fora dos territórios que as originaram, muitas vezes sem o devido reconhecimento. Ao levá-las para dentro da feira, o evento altera essa lógica e recoloca a autoria no lugar de origem.

Há um paralelo possível com outras manifestações que, ao serem institucionalizadas, passaram a ocupar circuitos formais sem perder completamente seu vínculo comunitário. O risco, nesses processos, costuma ser a descaracterização ou a redução a produto turístico. No caso do Olojá, o desafio parece outro. Trata-se de garantir que a visibilidade conquistada se traduza em condições reais de continuidade, sem que o evento dependa exclusivamente da mobilização de quem já sustenta essas práticas.

A distribuição de alimentos ao público durante a festa reforça um princípio que atravessa essas tradições. A partilha, nesse contexto é parte de uma ética coletiva que organiza relações sociais e espirituais. Quando esse gesto ocorre em um espaço como a Feira de São Joaquim, ele amplia seu alcance e dialoga com a própria dinâmica do lugar.

A presença do Olojá no calendário oficial não encerra o debate sobre reconhecimento. Pelo contrário, inaugura uma etapa em que visibilidade e responsabilidade passam a caminhar juntas. A cidade que incorpora a festa precisa responder ao que ela representa. A pergunta que permanece não é se Exu pode ocupar o centro, mas o que muda quando essa ocupação deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Foto: Alexandro Santos

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Criado por Jadson Nascimento

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