Inclassificáveis e o retorno que redefine narrativas no MUNCAB

Exposição apresenta obras repatriadas e amplia leituras sobre a produção artística negra no Brasil

O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira apresenta a exposição “Inclassificáveis”, que marca a primeira exibição pública do acervo Con/Vida após a maior repatriação de obras de arte já realizada no Brasil. A mostra reúne parte de um conjunto com mais de 600 peças que estavam há décadas nos Estados Unidos e que agora passam a integrar o patrimônio cultural brasileiro, ampliando o acesso a produções de artistas negros do Nordeste.

Com curadoria de Jil Soares e Jamile Coelho, a exposição organiza obras de diferentes linguagens e trajetórias, propondo uma revisão das classificações historicamente atribuídas a esses trabalhos. Ao reunir artistas vinculados a territórios como o Pelourinho e o Recôncavo Baiano, a mostra evidencia conexões entre memória, cotidiano e práticas artísticas desenvolvidas fora dos circuitos institucionais tradicionais.

A equipe do portal Diáspora acompanhou a coletiva de imprensa e a visita guiada de abertura, onde foram apresentados os três núcleos que estruturam a exposição. As obras estão distribuídas entre “Restituir Sentidos”, “Escolas Invisíveis” e “Cotidianos”, e refletem diferentes contextos de produção, destacando continuidades entre gerações de artistas e a presença de referências culturais ligadas às vivências locais.

A incorporação do acervo ao MUNCAB também reforça o papel da instituição na preservação e difusão da arte afro-brasileira. Com a chegada das obras, o museu amplia suas possibilidades de pesquisa e formação, além de fortalecer o diálogo com universidades, pesquisadores e o público interessado em acessar produções que, até então, permaneciam fora do país.

Confira na íntegra a entrevista com os curadores Jamile Coelho e Jill Soares e a diretora Cintia Maria, ao portal Diáspora.

A exposição propõe romper com categorias como “naif” e “primitiva”, historicamente usadas para enquadrar a produção de artistas negros. De que forma a curadoria buscou construir uma nova leitura para essas obras dentro do contexto das artes visuais brasileiras?

Eu acredito que é uma das poucas exposições, se não a primeira, a fazer com que essa categoria que o mercado das artes enquadrou, enquanto naífica, ela saísse da tela. Então, eu acho que isso rompe. A história, inclusive, dessa categoria, dessa classificação que é voltada para a produção de epistemologias negras visuais e principalmente dentro do contexto da arte dita primitiva, naíf, ingênua. Eu lembro de muitos anos atrás, estudando um pouco a história da arte, que Matisse, ao apresentar o seu trabalho em Paris, ele foi rejeitado porque os críticos não viam enquanto pintura, viam enquanto um borrão selvagem. E aí ele constrói uma escola a partir dessa provocação. Então, acredito que os artistas que têm essa produção que não é legitimada dentro de academias ou por instituições criadas acabam sendo colocados nesse lugar. Não é à toa que a gente tem aprendizes a partir da Escola de Escultores de Cachoeira, da Escola dos Mestres Artífices, dos Arcos da Conceição da Praia e da Escola do Pelourinho”. Jil Soares

O acervo reúne artistas que produziram em diferentes contextos e territórios. Quais diálogos e conexões vocês identificaram entre essas trajetórias ao organizar os núcleos da exposição?

“Falando um pouco desse núcleo do Pelourinho, você tem essa narrativa proibida. Ele traz muito um cotidiano relacionado às vivências do interior, com memória de infância. Então vários artistas revisitam esse lugar de forma muito forte. Ao mesmo tempo, você entra num núcleo que fala do Pelourinho, mas que tem uma narrativa rural muito presente, exatamente porque esses artistas carregam essas memórias.” Jamile Coelho

A chegada desse acervo representa a maior repatriação de obras de arte já realizada no Brasil. Como essa incorporação impacta o papel do MUNCAB?

“O retorno dessas obras ao seu território, especialmente ao MUNCAB, que é um museu negro com compromisso com a valorização e difusão da cultura afro-brasileira, é muito especial. Esse acervo chega a uma instituição que pensa a partir de uma perspectiva de combate ao racismo. A exposição também surge nesse contexto, celebrando a potência visual, artística e histórica dessas obras.” Cintia Maria

Ainda sobre os núcleos, como essas trajetórias tensionam classificações e reafirmam outras formas de leitura sobre essas obras?


“Quando a gente questiona essas classificações, trazer artistas como J. Cunha como “ingênuo” ou “naif” é algo impensável hoje. A gente precisa reivindicar esse lugar. Você tem uma linhagem inteira que vem de Cachoeira, com mestres, famílias, narrativas do cotidiano, um barroco vivo. E, ao mesmo tempo, obras que já traziam questões fundamentais, como um Jesus Negro na década de 1960. Isso mostra que essas produções sempre estiveram à frente, mesmo quando a arte não reconhecia a importância da identidade negra.Jamile Coelho

E quais são os desdobramentos desse processo para a pesquisa, a memória e as futuras gerações?


“Essa repatriação também é pedagógica, porque não houve litígio, houve um desejo de devolução. Hoje, universidades já procuram o museu, pesquisadores negros estão estudando esse acervo a partir de outras perspectivas. Isso fortalece a possibilidade de falarmos sobre nós mesmos. Além disso, reafirma o compromisso com o território, celebrando artistas do Pelourinho e de Cachoeira, e garantindo que essas obras permaneçam vivas por muitas gerações.Ao reunir memória e território, “Inclassificáveis” apresenta ao público um acervo que retorna ao Brasil após décadas no exterior. Com a incorporação das obras ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, a exposição amplia o acesso a essas produções e contribui para novas leituras sobre a arte afro-brasileira, a partir de perspectivas conectadas aos próprios territórios e às trajetórias de seus artistas.” Cintia Maria

Artistas com obras presente na exposição INCLASSIFICÁVEIS:

Alberto Pitta, Alfredo Cruz, Babalu, Calixto Sales, Celestino (Louco Filho), Didito, Dory, Ednéia, Eduardo Santos Silva, Emma Valle, Frank Bahia, Gil Abelha, Gilvan Lima, Gisele, Goya Lopes, Ivanildo Lopes, Ivaldo Lisboa, Ivonete Dias, J. Cunha, John Kinnidy, Jorge Santos, Jó Silara, Lena da Bahia, Louco, Lydia Hora, Mauro Di Verde, Mestre Mimu, Nivaldina, Palito, Pedro Santos, Raimundo Bida, Raimundo França,Raimundo Nonato, Renato Lima, Roque Escultor, Sol Bahia,Telma Sá, Thelmo Sá, Totonho,Tupinancy, Ubiraci, Tibiriçá, Zé Adário.

Fotos: Jadson Nascimento

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Criado por Jadson Nascimento

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