Está em cartaz no Instituto Guimarães Rosa, em Maputo, conhecido como a Casa do Brasil em Moçambique, a exposição Máquina para Moer o Tempo, da artista visual e pesquisadora brasileira Jessica Lemos. Em sua primeira exposição individual na capital moçambicana, a artista apresenta trabalhos que transitam entre fotografia, vídeo, performance e intervenção urbana, propondo uma reflexão sobre o caráter coletivo, celebrativo e de resistência presente no cultivo e no preparo da mandioca.
Elemento central da mostra, a mandioca — também chamada de aipim, cassava, yuca ou mhogo — aparece como símbolo de memória, continuidade e pertencimento. A partir de mitos de origem ligados aos povos Tupi-Guarani, que narram o surgimento da raiz a partir do lamento coletivo pela morte da pequena Mani, a exposição evoca a mandioca como metáfora de um ciclo de transmissão de saberes entre gerações, no qual o conhecimento se transforma em histórias, cantos, práticas e rituais.


Esse ciclo é acionado como força crítica diante dos apagamentos históricos produzidos pelo colonialismo. A ideia da máquina que mói o tempo atravessa a exposição como imagem de transformação contínua, capaz de tensionar o silêncio imposto e afirmar a potência da memória compartilhada. A obra Apagamento (2021), apresentada como eixo do percurso, dialoga diretamente com essas questões ao confrontar a noção colonial de que povos em diáspora não seriam capazes de construir redes de solidariedade, apoio mútuo e resistência.
“É uma exposição que traz uma diversidade de fotografias, performance e instalação. Esses trabalhos, essas múltiplas linguagens, se unem para falar de um tema principal, que é a mandioca. Ela chega nessa narrativa como símbolo de ancestralidade, de coletividade e também de afeto entre mulheres — principalmente mulheres que trabalham em casas de farinha, que atuam em feiras, e de famílias que se reúnem para cultivar essa raiz. A gente sabe que é uma raiz que alimentou diversas nações e continua alimentando, além de ser um símbolo de conexão entre a América Latina e a África, porque fez esse trajeto e se popularizou em ambos os continentes. Poder conectar as relações afrodiaspóricas aqui, de forma presencial, e vivenciar isso de perto é uma oportunidade muito especial” conta Jessica Lemos.

Com curadoria de Janayna Araújo, a exposição propõe um exercício de devolução do olhar, sustentado a partir do encontro entre pares e da valorização das experiências coletivas. O percurso convida o público a reconhecer a transmissão de saberes e a resistência cultural como caminhos possíveis de cuidado, permanência e afirmação identitária.
“Essa é a minha primeira exposição fora do Brasil, e é muito significativo para mim estar aqui. A exposição fala muito sobre relações, sobre a força de coletividade que nasce dessa troca em torno da mandioca. Então, para além desse aspecto do trabalho, muitas outras relações surgem: a familiaridade, a conexão que acontece. É interessante perceber a conexão que existe entre o Brasil e Moçambique, entre a Bahia e Maputo. Durante essa viagem, foi muito intenso perceber o quanto tudo já era conectado: à cidade em si e às pessoas também. Tudo isso a gente quis trazer para a exposição, e quis muito que vocês pudessem sentir isso, ressalta Janayna Araújo”


O projeto contou também com a participação da cineasta brasileira Vivian Silva, responsável pelos registros documentais realizados em Moçambique.
Máquina para Moer o Tempo traz o Instituto Guimarães Rosa como espaço de diálogo entre Brasil e Moçambique, reunindo histórias, memórias e práticas que atravessam o Atlântico e seguem em constante movimento.





Fotos: Alexandro Santos | Portal Diáspora
