‘Linhas Invisíveis’ unem Bahia e Moçambique pelo mar ancestral


A exposição Linhas Invisíveis, inaugurada no Centro Social & Cultural do Núcleo de Arte, em Maputo, apresentou 26 obras impressas em tecido que revelam as pontes culturais entre comunidades pesqueiras da Bahia e de Moçambique. O lançamento reuniu artistas, curadores e público em uma abertura marcada por diálogos sobre memória, ancestralidade e a força afro-diaspórica que costura esses dois territórios.

Idealizada pelos artistas baianos de Itaparica Filipe Oliveira e Lucas Souza, a mostra estabelece um encontro sensível entre a Ilha de Itaparica e as regiões costeiras moçambicanas – como Katembe, distrito e Maputo, situado na costa sul da Baía de Maputo – aproximando gestos, rotinas e paisagens que, apesar do oceano entre elas, compartilham histórias profundas. A curadoria de Juci Reis e Jorge Dias enfatiza essas conexões como “linhas invisíveis” que atravessam corpos, tempos e práticas coletivas, transformando o mar em arquivo, travessia e ponte.

Durante a abertura, Filipe e Lucas compartilharam com o público o processo de criação das obras, que combinam fotografia documental e registros aéreos para revelar novos ângulos da vida costeira. Eles destacaram como encontros com pescadores e moradores, tanto na Bahia quanto em Moçambique, ampliaram a compreensão sobre ancestralidade como experiência viva — capaz de se manifestar em movimentos cotidianos, rituais e memórias que persistem mesmo diante da distância geográfica.

Expostas em tecido, as 26 obras reforçam a ideia de fluidez entre territórios, evocando tanto o movimento das marés quanto a delicadeza das tramas comunitárias que sustentam essas regiões. Do azul que veste o pescador baiano às imagens aéreas produzidas na Ilha de Itaparica, Linhas Invisíveis propõe um olhar cruzado em que cada fotografia opera como fragmento de um arquivo em constante renovação, dialogando com as cenas registradas nas regiões costeiras de Moçambique.

O projeto, que conta com apoio do Flotar Plataforma, Instituto Guimarães Rosa, Embaixada do Brasil em Moçambique e do Governo do Estado da Bahia, celebra também os 50 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Moçambique. Ao reunir públicos de ambos os países, a exposição reafirma o oceano não como limite, mas como eixo de aproximação, fortalecendo a noção de uma diáspora viva, criativa e em permanente diálogo.

Filipe e Lucas contaram com exclusividade ao portal Diáspora, um pouco sobre a concepção desse trabalho.  Confira

Conta pra gente um pouco sobre este projeto — como ele nasce e o que busca comunicar.

(Filipe) “Linhas Invisíveis, que é um projeto de acervo fotográfico e essa exposição, e pesquisa, conectando a Ilha de Itaparica, na Bahia, com Moçambique e suas comunidades pesqueiras. Esse projeto surge da minha primeira vinda a Moçambique, conhecendo um pouco do bairro de Katembe, conhecendo um pouco da comunidade da vila dos pescadores, e vendo a singularidade, vendo as conexões, vendo as coisas que são comuns no local onde eu moro, no local onde eu nasci, no local onde eu convivi e convivo até hoje.

Qual é a proposta deste projeto e o que ele se propõe a investigar ou provocar?

(Filipe) “A  ideia, a construção deste projeto surge através de uma profissão que tem saberes ancestrais, tem conexões ancestrais, tem mãos que trabalham através do fruto do mar, mãos que entendem que o mar nos conecta e nos distancia de onde é de nossas origens. Falar sobre Linhas Invisíveis é também falar sobre a Ilha de Itaparica no sentido geral e também falar sobre Moçambique”.

Lucas, como fotógrafo aéreo e documentarista, o que muda quando o olhar se desloca para cima? Que diferenças esse ponto de vista revela em relação ao olhar em terra?

(Lucas) “Eu me sinto um pássaro. Tenho um drone imersivo que, quando coloco os óculos, é como se eu estivesse vivendo aquela experiência, mergulhando em cada fotografia, em cada vídeo. Então, como eu não posso voar, o drone faz isso por mim. Esse olhar de cima, para mim, muda totalmente a perspectiva, porque normalmente vemos tudo na linha dos olhos. Quando eu vejo de cima, essa visão é totalmente modificada: é outro encanto, outro tipo de olhar. Para mim, isso é extraordinário.”

Filipe, como se constrói a sua visão dessas imagens? De que maneira a sua experiência como pessoa daltônica atravessa o seu olhar e influencia a forma como você enxerga e produz essas fotografias?

(Filipe) “Eu sou fotógrafo daltônico e eu quis trazer isso para essa exposição através das fotografias menos saturadas, trazendo principalmente a cor marcante do azul. As cores que eu não enxergo basicamente são as verdes e complementares, mas o azul é uma cor que eu consigo enxergar com máxima qualidade e é uma cor que eu vejo presente em todos os lugares. Se você tratar de fotos menos saturadas, as pessoas podem achar que são fotografias mais tristes, mas eu acredito que a eternização de momentos específicos do meu ponto de vista e conseguir trazer isso para pessoas que enxergam o mundo com cores, o meu olhar do mundo para vocês, tem sido ideal para esse projeto.”

Durante as pesquisas, ficou evidente a forte conexão entre Bahia e Moçambique — entre Brasil, Maputo e Salvador. Como foi feito esse mapeamento de referências, territórios e narrativas que resultou nesta exposição?

(Lucas) “Quando pensamos em Maputo, começamos a pesquisar locais que fossem vilas de pescadores. A partir de imagens de satélite e do mapeamento no mapa, percebemos muitas semelhanças — foi aí que tudo começou. Identificamos esses locais na Ilha de Itaparica e passamos a fotografá-los com base nas imagens de satélite de Maputo. Observamos essas referências e as reproduzimos em nossa cidade, em territórios semelhantes aos vistos nas imagens de satélite.”

Como é apresentar, em Moçambique, um projeto que nasce na Bahia?

(Filipe) “Apresentar esse projeto aqui no Núcleo das Artes, aqui em Moçambique, tem sido uma realização de um sonho, tem sido gratificante. Então, o que eu tenho a agradecer principalmente é o apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Estado a Flotar ao Instituto Guimarães Rosa e também ao Núcleo das Artes.” 

O que você leva consigo dessa experiência em Maputo?

(Lucas) “Eu levo o ensinamento e o aprendizado daqui de Maputo e também vou levar as fotografias feitas aqui. Agora, elas não serão mais apenas fotografias de satélite: vou pessoalmente aos locais que localizamos pelo satélite para realizar essas imagens. Assim, levamos a esperança de um projeto que vai voltar a Moçambique, vai voltar a Maputo, para representar e mostrar as fotografias feitas aqui em comparação com aquelas produzidas em Itaparica, que são as que estão sendo apresentadas agora.”

Alexandro Santos | Portal Diáspora

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Criado por Jadson Nascimento

Contatos

Salvador - BA
71 9 8618-8303
contato@portaldiaspora.com.br

Seja avisado dos nossos conteúdos pelo email

© 2022 DIASPORA Todos os direitos reservados.